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Orkhḗstra Phántasma

Por Marcelo Fava · 09 JUL 2026
Orkhḗstra Phántasma

No papel, Orkhḗstra Phántasma é genial. Felipe Hirsch cruza duas palavras que nunca deveriam se encontrar. De um lado, karaokê, do japonês kara (vazio) mais okesutora (orquestra). Do outro, orkhḗstra, o espaço do coro no teatro grego antigo. Daí nasce a imagem central — cada cabeça como uma orquestra vazia esperando um fantasma pra cantar. Ele ainda cruza a teoria do Stone Tape, que Mark Fisher analisa em The Weird and the Eerie, com um fragmento perdido de Eurípides e um diário da atriz Georgette Fadel. É o tipo de ideia que só nasce depois de décadas desconfiando das próprias certezas.

Depois de trinta anos entre a Sutil Companhia e o Ultralíricos, Hirsch chama esta fase de terceiro ato, mais solitário. Já disse em entrevista que o teatro é perigoso e que cobra do público a mesma destruição de certezas que cobra dos atores. A plateia pode se irritar e ir embora, e tudo bem.

Não estava no meu melhor dia quando fui ver a peça. Boa parte dos cacos não grudou. Depois da primeira hora, algumas pessoas começaram a sair. Quem ficou também se perdeu no caminho, entre telas de celular acendendo na plateia, um jeito silencioso de desistir sem se levantar da cadeira.

Não vou chamar isso de falha do espetáculo. O próprio diretor parece contar com isso. Talvez seja mais sobre mim, treinado demais a trocar de aba antes dos cinco minutos pra sustentar três horas de qualquer coisa. Me veio à cabeça uma frase de Denise Stoklos, sobre estar cada dia mais difícil fazer teatro contemporâneo. Fiquei pensando que talvez o difícil, hoje, seja assistir.

Queria escrever que descobri uma chave de volta pro espetáculo. Não descobri. Passei a noite de fora, tentando captar uma frequência que não chegou até mim, admirando a engenhoca sem conseguir entrar nela.

Fica o relato, não a defesa, nem o ataque. Só a lembrança de uma noite em que a orquestra não tocou pra mim.

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