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Mulher em Fuga

Por Marcelo Fava · 28 JAN 2026
Mulher em Fuga

Não se trata apenas do fim de um casamento, mas da autópsia de uma vida silenciada. Ao adaptar a autoficção visceral de Édouard Louis, a peça expõe uma ferida antiga: o abismo entre um filho que precisou partir para ser quem é e uma mãe apagada pela violência doméstica e pela anestesia social.

Sob a direção precisa de Inez Viana, o palco se transforma em um campo de batalha doméstico, sem recorrer ao realismo óbvio. A cenografia de Dina Salem Levy utiliza uma longa mesa para materializar a distância intransponível entre os personagens, separando a escassez da infância da abundância intelectual que o filho conquistou. A iluminação de Aline Santini recorta esses territórios da memória e guia o olhar até um clímax inesperado: uma bateria que surge como o som da revolta e converte a dor contida em celebração.

Há uma identificação imediata e dolorosa para qualquer pessoa LGBTQIA+ que já sentiu a necessidade de sair de casa para “salvar” a si mesma. Tiago Martelli encarna esse filho que foge para estudar, crescer e escapar de um ambiente que o rejeita, narrativa comum a tantos de nós que aprendemos cedo a nos virar sozinhos. Seu retorno, porém, revela a complexidade do afeto. Ele volta para ajudar a mãe, interpretada por Malu Galli, uma mulher que, presa à busca incessante por validação masculina, apagou-se por completo. O que vemos em cena é esse “rasgo”: o filho que sente que nunca teve uma mãe tentando oferecer a ela a liberdade que ele próprio conquistou a duras penas.

Assistir a Malu Galli transitar da submissão à euforia da liberdade é um ato de vingança poética. A peça nos lembra que a emancipação de Monique não é apenas uma vitória feminina, mas também uma reconciliação possível entre quem partiu e quem ficou. Trata-se de uma obra urgente sobre as estruturas que nos silenciam e sobre a coragem necessária para rompê-las.

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