Habitat
A arte cumpre seu destino quando a cortina se fecha e o que resta é a raiva. Sob essa ótica, ‘Habitat’ atinge o alvo com precisão. A peça não é um convite ao lazer, é uma intimação. Embora o programa descreva o conceito biológico de um ambiente que molda organismos, ao deixarmos a sala, a definição pesa menos como ciência e mais como uma sentença sobre a nossa própria natureza.
Inspirada em fatos reais, a obra articulada por Rafael Primot nos joga na zona cinzenta de um crime. Mas o verdadeiro horror não está no ato, e sim na construção da culpa. Assistimos, impotentes, à anatomia de um linchamento social onde a verdade é a primeira vítima.
No palco, a jornalista (Fernanda de Freitas), o trabalhador (Rafael Primot) e o gerente (Rogério Brito) travam um duelo em que a hierarquia do dinheiro obriga a traição. A fusão do olhar sensível de Lavínia Pannunzio com o rigor estético de Eric Lenate cria uma direção cirúrgica: visualmente limpa, mas emocionalmente suja e crua.
O cenário torna-se um personagem claustrofóbico, expondo nossa hipocrisia: usamos causas nobres para destruir reputações e saciar uma “moralidade de vitrine”. O silêncio, aqui, grita tanto quanto os diálogos.
Saí da sessão com o gosto amargo de que, na era do tribunal digital que carregamos no bolso, a linha entre monstro e vítima é decidida por quem conta a história (e por quantos likes ela gera).
Necessário. Cruel. E assustadoramente real.
Ficha técnica
Dramaturgia: Rafael Primot
Direção: Lavínia Pannunzio e Eric Lenate
Elenco: Fernanda de Freitas, Rafael Primot e Rogério Brito