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Simplesmente Eu, Clarice Lispector

Por Marcelo Fava · 22 JUL 2026
Simplesmente Eu, Clarice Lispector

Por muito tempo, conheci Clarice Lispector mais pelas frases que circulavam nas redes sociais do que pelos seus livros. Em 2010, uma campanha da Editora Rocco chamou atenção para a quantidade de citações atribuídas a ela sem que fossem suas. O alerta chegou tarde. Clarice já havia se transformado em uma autora compartilhada aos pedaços, onde a circulação das frases importava mais do que sua origem.

Assistindo a Simplesmente Eu, Clarice Lispector, tive a sensação de que a montagem faz um movimento parecido. Em vez de contar uma trajetória ou construir uma narrativa biográfica, Beth Goulart encarna quatro personagens criadas por Clarice — Joana, Ana, Lóri e a mulher sem nome de Perdoando Deus — costurando fragmentos de romances, contos, entrevistas e pensamentos. A peça não organiza uma história; ela aproxima vozes, como se também reconstruísse Clarice aos pedaços.

Durante a peça percebi que essa dificuldade não vem da encenação. Vem de Clarice. Meses antes de morrer, sentada diante das câmeras da TV Cultura, ela disse a Júlio Lerner que não entender não é questão de inteligência, mas de sentir, de entrar em contato. O espetáculo leva isso a sério: não organiza Clarice para quem chega de fora, porque ela mesma nunca tratou o entendimento como coisa que se explica — trata como coisa que se sente.

Saí da sessão com a impressão de conhecer muito pouco de Clarice Lispector. Ao meu redor, muitas pessoas recebiam aquelas palavras como quem reencontra alguém antigo. O que parecia separar a plateia era a familiaridade que cada um já tinha com aquela escrita. A peça não me apresentou Clarice. Apenas deixou claro que conhecê-la exige um caminho que nenhuma seleção de frases é capaz de substituir.

Ficha técnica

Concepção, adaptação e atuação: Beth Goulart

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