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Realpolitik II

Por Marcelo Fava · 21 MAI 2026
Realpolitik II

Helena Taliberti caminhava pela Avenida Paulista quando a barragem rompeu. Seus dois filhos, a noiva de Luiz grávida do primeiro neto, Lorenzo, e o pai e a madrasta deles estavam em uma pousada na cidade atingida. Planejavam visitar os museus locais. Nenhum deles retornou. Sete anos após o soterramento que encerrou 272 vidas, o sistema judicial brasileiro não produziu uma única condenação criminal.

A inércia dos tribunais, no entanto, não paralisou quem ficou. Helena, Vagner Diniz, seu marido, e sua rede de apoio criaram o Instituto Camila e Luiz Taliberti para dar prosseguimento ao trabalho dos filhos. Camila era advogada e defensora dos direitos das mulheres. Luiz era arquiteto e ambientalista. A avalanche de rejeitos tentou soterrar também o alcance dessas existências. O instituto funciona como um obstáculo a esse apagamento, convertendo a memória familiar em ação civil direta.

É nesse rastro que Realpolitik encontra sua razão de existir. Nos espaços onde a investigação perde tração e a justiça falha, a encenação assume o registro dos fatos. Nomear as vítimas deixadas para trás pelas planilhas de risco calculado é uma defesa prática da sanidade coletiva.

O lema assumido pelo instituto sintetiza essa resposta histórica: “Tentaram nos enterrar. Não sabiam que éramos sementes.” Enquanto os executivos que controlam as barragens seguem administrando lucros em centros financeiros idênticos à sala branca da encenação, Helena mantém o trabalho diário de cultivar no terreno que restou.

Ficha técnica

Dramaturgia: Daniela Pereira de Carvalho
Direção: Guilherme Leme Garcia e Gustavo Rodrigues
Elenco: Pedro Osório e Augusto Zacchi

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