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Anywhere I

Por Marcelo Fava · 20 MAI 2026
Anywhere I

Quando saí do Rio Grande do Sul, eu sabia exatamente o que estava deixando para trás. Quem nasce ciente do que se é aprende cedo a primeira regra: sobreviver. Aos olhares. Às falas. Às fofocas de uma cidade estagnada no tempo.

Não foi fuga. Foi a única escolha viável.

Anywhere fala de refugiados ao redor do mundo. Mas qualquer LGBT que já precisou sair de uma cidade, de uma casa, de uma família, entende esse aeroporto sem precisar de explicação. O não-lugar não é metáfora. É endereço.

Há um exílio que raramente aparece nos jornais. O de quem foge de um país onde existir é crime e da própria família que confirma a sentença. Às vezes são a mesma pessoa. Em cena, um homem retido entre fronteiras, à espera de um documento que autorize sua existência. Enquanto o corpo aguarda, o desenho sonoro e o vídeo disparam o fluxo das lembranças. Outras histórias atravessam o palco. O ator não interpreta. Ele arquiva. Ao vivo.

A perseguição tem muitas bandeiras. Algumas são de países distantes. Outras tremulam bem perto. O sistema exige que a dor seja apresentada como prova, repetida como protocolo, justificada como condição de sobrevivência. O palco como o único lugar onde essas vidas ganham nome.

Todo gay carrega em si um ator. Não é talento. É necessidade.

Ficha técnica

Criação, dramaturgia e interpretação: Ricardo Corrêa
Direção: Reis Davi

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