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Rei Lear

Por Marcelo Fava · 11 MAR 2026
Rei Lear

O rei perde a coroa, os cavaleiros e a sanidade. A drag queen perde a peruca, os cílios postiços e a pose. Há uma rima dolorosa e exata entre a queda de um monarca absoluto e o desmonte físico de um corpo performático. Quando a Cia. Extemporânea assumiu a montagem de Rei Lear, o que subiu ao palco não foi a reverência acadêmica, mas o barulho ensurdecedor da subversão. O corpo drag aqui não tenta emular o feminino para criar ilusão cênica, como faziam no antigo teatro elisabetano. Ele entra em cena como um manifesto ruidoso, com uma estética superlativa e exagerada.

A tragédia ganha os contornos suados de um show de boate. A direção usa o artifício do falso, do brilho ofuscante, do paetê e da maquiagem pesada, para arrancar a verdade de cada personagem. O ápice dessa dissonância acontece na tempestade. Em vez de um monólogo proferido sob o som de trovões cenográficos, a fúria de Lear se materializa numa batalha de lip sync ao som de “It’s Raining Men”. É o trágico colidindo com o hino das pistas, uma mistura que te joga do riso ao choro, expondo o sangue e o cansaço real de quem sustenta aquele delírio.

Nessa espessura dramática, recusa-se a visão pasteurizada que o mercado imperialista tentou impor à arte drag através de competições formatadas. O que pulsa na cena é a garra de quem faz arte na América Latina, um território hostil que exige da população queer uma resistência de trincheira. A hiperteatralidade age como um espelho impiedoso das nossas próprias violências cotidianas.

Ao esfregar a pista de dança no rosto do clássico, a peça estraçalha a ideia de que Shakespeare exige fleuma e mesóclise. A obra original é mundana, suja e sublime, exatamente como a cultura drag. A consagração máxima desse fato veio quando Alexia Twister levou o Prêmio Shell de Melhor Ator. Isso cravou na história que a performance de uma queen possui rigor técnico e um estofo dramático inquestionável. Lear não é um conto de fadas infantil. Aqui, a purpurina funciona apenas como o curativo estético de um rei com o coração em ruínas.

Ficha técnica

Companhia: Cia. Extemporânea · Direção e Adaptação: Ines Bushatsky e João Mostazo
Elenco: Alexia Twister, Thelores Drag, DaCota Monteiro, Antonia Pethit, Ginger Moon, Lilith Prexeva, Maldita Hammer, Mercedez Vulcão, Xaniqua Laquisha
Teatro Sérgio Cardoso · Prêmio Shell de Melhor Ator (Alexia Twister)

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