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Blasted

Por Marcelo Fava · 08 ABR 2026
Blasted

Há espetáculos que sabotam o alívio de quando a luz acende. Blasted, de Sarah Kane, é um deles. Escrito aos 24 anos sob o impacto da Guerra da Bósnia servida pela TV, o texto exige uma digestão lenta, ecoando como um ruído no dia seguinte. A narrativa parte da falsa segurança de um quarto de hotel de luxo, onde Ian, um jornalista racista, misógino e manipulador, confina a vulnerável Cate. A violência desse abuso dita o ritmo até que o cenário é estilhaçado pela invasão de um soldado, invertendo a lógica de dominação. Kane provava que a violência doméstica e a guerra habitam o mesmo lugar. Trinta anos depois, com atrocidades transmitidas ao vivo e extremismos reeleitos em loop, a obra deixa de ser um documento do passado para virar a crônica do nosso próprio colapso.

Na montagem de José Fernando, a escolha de colocar um ator negro na pele desse opressor desloca o eixo da peça para uma fratura familiar ao Brasil. A direção questiona: o que acontece com quem aprende a linguagem da violência, mas acaba devorado por ela? O espetáculo responde com a própria ruína. A desintegração física de Ian no palco atesta que não há blindagem possível: nenhuma posição de poder protege um corpo negro da violência estrutural. Nenhuma.

A experiência ganha contornos asfixiantes com a estética de “peça-filme” da Sociedade Arminda. A câmera operada ao vivo não serve de registro, mas de emboscada. O incômodo se torna físico porque uma tela gigante em 16:9 encurrala o olhar, projetando em close-up o suor, o pavor e a humilhação de cenas que preferiríamos não ver. Não há ponto de fuga. O dispositivo engole o público numa verdadeira “datenização” da desgraça. É o espelho cru de como assistimos a atrocidades ao vivo e digerimos a morte espremida entre um Reel e outro no Instagram. A câmera não está lá para criar distância, ela sequestra nossa apatia e nos transforma em voyeurs da barbárie.

Saí de lá profundamente incomodado, e acho que era exatamente esse o ponto.

Ficha técnica

Direção: José Fernando (Sociedade Arminda)

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