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Betrayal

Por Marcelo Fava · 21 ABR 2026
Betrayal

Em 1978, ao escrever Traição (Betrayal), Harold Pinter sentou para dissecar um caso amoroso que havia tido, enquanto vivia outro. Era esse o tipo de homem que ele era, e é exatamente essa matéria humana que a peça carrega. A montagem de Lavínia Pannunzio não tenta fugir disso nem atualizar nada: preserva a ambientação britânica dos anos 1970, o protocolo social de uma classe que confunde etiqueta com caráter. A gramática do cinismo não envelhece e dispensa atualizações.

A dramaturgia caminha em marcha à ré para expor a ruína de um marido, sua esposa e o melhor amigo dele. A narrativa começa na falência afetiva desse triângulo em 1977 e recua até o flerte etílico de 1968. Assistir às promessas iniciais quando já se conhece o tamanho do estrago retira qualquer verniz romântico da traição. O que sobra é a contabilidade de um adultério de grife: os cálculos de quem escondeu o quê, e o momento exato em que todos decidiram fingir normalidade.

Luiza Curvo, Leonardo Brício e Diego Machado formam o trio que parece nunca abandonar o espaço por completo. Mesmo nas cenas a dois, a ponta excluída repousa na penumbra. Essa vigília não dá sossego. O que eles engolem no silêncio pesa muito mais do que as palavras ditas. É o triunfo burguês de saber exatamente o que calar para garantir que o pacto de aparências sobreviva ao jantar.

O contraponto a esse aquário de gente polida vem de uma figura externa. Uma observadora silenciosa que atravessa a ação como quem acha graça de todo aquele teatro. Ao surgir como garçonete no clube de squash, ela provoca risos ao corrigir o italiano capenga dos engravatados, furando de imediato a pose intelectual da roda. Mais tarde, assumindo a função de intérprete de Libras, ela transfere os não-ditos para a fisicalidade dos sinais. É o olhar debochado do nosso tempo sobre gente que ainda acha que sabe se comportar.

O que se vê no palco passa longe de um drama passional. A peça expõe um protocolo de sobrevivência moral. O espetáculo mostra como a covardia, quando bem administrada, ganha ares de método.

Ficha técnica

Direção: Lavínia Pannunzio · Elenco: Luiza Curvo, Leonardo Brício, Diego Machado
Teatro UOL, São Paulo

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