O Último Voo da Nave
Ir a um show da Xuxa aos 35 anos me pareceu simbólico. Nasci no interior do país, a 600 quilômetros da capital, e, quando criança, os shows que eu sonhava assistir pareciam longe demais. Xuxa chegava até mim pela televisão. Hoje moro em São Paulo, a dez minutos do Allianz Parque. Fui à estreia de O Último Voo da Nave com meu marido e amigos. Talvez por isso tenha sido impossível assistir àquele espetáculo apenas como uma lembrança de infância.
O que encontrei ali não era só meu. Xuxa reuniu no mesmo estádio quem cresceu nos anos 80, 90 e 2000. Adultos que foram crianças diante da televisão, pais com filhos no colo, gente reencontrando músicas, personagens e uma estética que escapou do tempo. Havia muita gente vestida de Paquita, sonho de infância de uma geração. Durante “Parabéns da Xuxa”, a música parou e ficaram apenas 50 mil pessoas cantando a capela. Era uma multidão adulta devolvendo à infância aquilo que ela havia guardado.
Eu reconhecia Xuxa como aliada desde os anos 90, muito antes de entender quem eu era ou seria a partir dos anos 2000. Só depois de adulto comecei a compreender por que ela ocupava, para tantos gays da minha geração, um lugar tão particular. Talvez algo próximo do que Madonna representou para outras gerações. Uma figura pop exagerada, performática, livre, do tipo que a gente queria ser antes de saber explicar por quê. A criança não sabia dizer o que reconhecia, mas reconhecia.
Antes de “Arco-Íris”, Xuxa parou o show, falou contra a homofobia e levantou uma bandeira LGBT diante daquela multidão. Ao meu redor, pessoas choravam. Eu também. E estava ali, ao lado do meu marido, vendo aquela mulher fazer isso décadas depois de eu já saber, ainda criança, que podia contar com ela.
No fim, Xuxa voltou para a nave. Eu, ao que parece, ainda não estou disposto a encerrar essa viagem. Já comprei o ingresso para 2027!