Festa do Abandono
“Pai, a tua falta foi homérica e disso eu renasci.” É com essa frase que Louise Helène abre a Festa do Abandono — e você ainda está tentando entender o que acabou de ouvir.
O Teatroiquè é um estúdio de cinema que abriga teatro. O fundo infinito, a curva contínua entre chão e parede, tudo branco, tudo à espera. Ela também chegou assim um dia. Do palco veio o corpo, do sapateado e do musical a performance clássica, da maquiagem o rosto como obra, do visagismo a leitura do outro, da fotografia o olhar que congela e controla. Tudo isso jogado de uma vez contra aquela brancura, sem amarras, sem retoques, sem a proteção do obturador.
Tinta vermelha nas mãos, no estúdio, no corpo, um balde inteiro derramado sobre a cabeça. A alvura vai desaparecendo e você a assiste definhar na sua frente. A autodestruição acontece em cena, camada por camada, enquanto o olhar perde o ponto fixo de ancoragem. Ao lado Davi Tápias traduz cada movimento no teclado — a música nasce do movimento e do que Louise carrega naquele dia.
Tem um luto em vida aqui, aquele que não tem velório nem data porque a pessoa que falta ainda existe em algum lugar do mundo. Um ato político, dor, e uma terapia que acontece ao mesmo tempo pra ela e pra quem está na sala.
No final o corpo nu no chão, coberto pelo vermelho. Encolhido como um recém-nascido. Ou destruído como o fim de uma vida. E pensar que isso tudo começou em uma festa.
Ficha técnica
Com: Louise Helène · Piano: Davi Tápias
Teatroiquè, São Paulo