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André Acioli – Trajetória

Por Marcelo Fava · 09 AGO 2026

Hoje eu converso com um amigo querido: André Acioli, curador artístico, ator e diretor, hoje à frente do Teatro Vivo e do Teatro Porto, presidente da APTI e criador, ao lado da Dani Angelotti, da MIACENA. Antes de tudo isso, foi curador do Teatro Eva Herz, dentro da Livraria Cultura, por dezesseis anos. Essa é a primeira de duas conversas: aqui, a trajetória dele, de ator a curador. Na próxima, o que ele pensa sobre curadoria hoje.

Antes do teatro

André Acioli tem 9 anos quando aparece pela primeira vez num set de filmagem, num filme de Carlos Reichenbach — muito antes de pisar num teatro como espectador. Ele conta assim:

“Eu, desde muito pequeno, desde criança, eu sempre tive esse desejo e esse anseio de trabalhar com artes cênicas. Dançava, fazia dublagem. Então, quando eu fiz o filme do Carlos Reichenbach, eu ainda tinha 9 anos.”

Anos depois, adolescente, ele entra num grupo de teatro amador sem nunca ter assistido a uma peça profissional. A primeira vez que isso acontece é numa excursão escolar até o Centro Cultural São Paulo, para ver “Van Gogh”, com Elias Andreato.

“Fui buscar fazer teatro amador sem nunca ter ido assistir a uma peça, e aí quando eu fui assistir a essa peça com o Elias, você vê o estado, né, porque o Elias é um estado. É como se fosse uma conexão profunda de: ‘caramba, é isso que eu quero, é isso que eu quero fazer’. Aquela coisa que, quando a gente é adolescente, todo mundo fica perguntando ‘o que você quer ser quando crescer?’. E eu tive essa certeza naquele momento.”

Aprender fazendo

Antes de virar curador, André passa por uma companhia de teatro infantil e pelo chamado teatro-empresa, intervenções cênicas pensadas para treinamento corporativo. Sobre esse período, ele diz:

“O que eu trago hoje em dia da época que eu trabalhava com teatro-empresa, e o mesmo também com espetáculo infantil, é um olhar administrativo, um olhar de normas, de regras, um lugar de profissionalismo, de educação, de formação de plateia. São todos elementos que de uma certa maneira somam no lugar de curador e também gestor do equipamento cultural dos quais eu cuido.”

O convite

O encontro que muda o rumo dessa história acontece por acaso. André entra na peça “Visitando o Sr. Green” para substituir um amigo de turma, Edinho Rodrigues, na assistência de direção de palco. Quem estava no elenco na época era Cássio Scapin, não Dan Stulbach — Dan entra depois, substituindo Cássio numa temporada em Portugal.

“Ficamos muito próximos. Viemos para São Paulo, continuamos a temporada aqui, e o Dan um dia falou: ‘quando um dia eu tiver um teatro, gostaria muito que você estivesse junto comigo’. Depois de dois anos, ele falou: ‘chegou o momento. Joguei isso para o Pedro Herz, ele comprou a ideia de a gente ter um teatro ali na Livraria Cultura… topa estar junto comigo?’. Até então eu fazia teatro-empresa, tinha minha produtora para teatro de treinamentos. E falei: ‘topo’. Vai ser uma nova vivência.”

Visitando o Sr. Green
Visitando o Sr. Green — Foto: Nana Moraes

Nascer com o teatro

Assim nasce o Teatro Eva Herz, em 2007. Nos primeiros tempos, era Dan Stulbach quem pagava o cachê de André do próprio bolso, até a Livraria Cultura formalizar um contrato direto.

“Foi um período muito intenso. A gente estava meio que descobrindo tudo. Falava muito: ‘a gente quer daqui do Eva Herz aquilo que a gente gostaria de estar em casa assistindo, nossos amigos, nossos debates, temas pertinentes’. A gente vivia um momento onde esse teatro de pensamento estava se perdendo um pouco de espaço. Foi uma coisa de ir na contramão, onde todo mundo estava fazendo espetáculos grandiosos para dar resultado financeiro. O Eva Herz vinha nesse lugar de contramão. Foi muito rico esse início, e para mim, muito aprendizado.”

Teatro Eva Herz
Teatro Eva Herz — Foto: Sergio Brisola

O outro lado do balcão

Ele chama esse momento de ter passado “para o outro lado do balcão” — de quem pede pauta para quem decide pauta. Mas por um bom tempo, gerir o Eva Herz era só isso: administração, repasse de bilheteria, controle de venda, impostos. Foi incomodando aos poucos.

“Como ator formado, com esse desejo de também estar criando, comecei a pensar: ‘como é que eu consigo ressignificar isso?’. Pedi para o próprio Elias Andreato se tinha como eu assistir a algum processo criativo. Foi quando ele me convidou para fazer assistência de direção de um espetáculo que estava criando. A partir daí comecei a fazer alguns projetos, cheguei a dirigir o próprio Elias. Fiz com Odilon Wagner, com o Dan Stulbach. Isso foi me trazendo outro olhar — de percepção de construção de uma curadoria. Que não é só pegar um projeto, cumprir uma temporada e ir embora. Tem um pensamento, uma construção, um desenho do que você quer falar.”

Essa percepção começa a se formar em 2010 e se consolida em 2014, quando Dan Stulbach sai da Livraria Cultura e passa o Eva Herz inteiro para André conduzir sozinho. Em 2015 ele entra no Teatro Porto. Em 2017, assume também a curadoria do Teatro Vivo.

“Tudo aconteceu muito próximo, muito intenso, tudo junto e misturado.”

Quem foi para o CCSP de excursão escolar, sem nunca ter visto uma peça, hoje decide o que vai estar em cartaz em dois teatros diferentes de São Paulo.

Sobre André Acioli

André Acioli é ator, curador e gestor cultural. Foi curador do Teatro Eva Herz, dentro da Livraria Cultura, entre 2007 e 2023. Hoje cura o Teatro Vivo e o Teatro Porto, preside a APTI e criou, ao lado de Dani Angelotti, a MIACENA — Mostra Internacional de Artes Cênicas em Espaços Não Convencionais e Alternativos.

Confira a segunda parte desta entrevista, sobre como André enxerga a curadoria hoje.

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