O Homem Decomposto
As redes sociais sempre foram sobre preencher o vazio. A gente consome, rola o feed, procura alguma coisa que não sabe nomear. O limbo tem algoritmo e a gente paga com atenção.
O Homem Decomposto chegou em 1994, antes de tudo isso existir. Visniec não precisou do algoritmo para entender o que ele faria com a gente.
Não há narrativa. Quatorze fragmentos em pouco mais de uma hora, um após o outro. O formato é o argumento. A plateia sai com a mesma exaustão de quem rolou o feed por tempo demais. Rimos da figura devorada por um animal que mata fazendo cócegas. Rimos do cliente que compra apagamento mental para deletar a tristeza. Rimos porque reconhecemos.
Personagens riscam círculos no chão para não serem tocados. Um homem corre sem parar enquanto fala. A nostalgia do que destruía com mais elegância diz mais sobre o presente do que qualquer manifesto. Sem nome. Sem data.
O indivíduo do título não se decompõe fisicamente. Perde os contornos. Abre mão de intervir no mundo e passa a gerenciar as próprias fobias. O que foi descrito ali talvez tenha sido apenas mais uma quinta-feira pós trabalho. O incômodo é que não parece.
Ficha técnica
Texto: Matéi Visniec · Tradução: Luiza Jatobá · Direção: Ary Coslov
Elenco: Andrea Dantas, Dani Barros, Júnior Vieira, Marcelo Aquino, Mario Borges
Sesc Pinheiros, São Paulo