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Um Precipício no Mar / Canção Que Vem de Longe

Por Marcelo Fava · 22 MAI 2026
Um Precipício no Mar / Canção Que Vem de Longe

Aos 36 anos, ainda não aprendi a lidar com o luto, não só o que tem data e velório, mas o outro também, o que ninguém reconhece como perda. Uma amizade que terminou com dor, um vínculo que foi embora sem cerimônia. Freud chamou isso de luto por abstração: a reação à perda de qualquer coisa que ocupou um lugar real dentro de você, uma pessoa, um ideal, uma fase que não volta. A dor não é proporcional ao tamanho da perda. É proporcional ao espaço que aquilo ocupava.

Um Precipício no Mar e Canção que Vem de Longe chegam juntos numa mesma noite. Dois monólogos de Simon Stephens, um só ator, dois lutos que não se parecem em nada.

Simon Stephens escreveu os dois textos em momentos distintos. O primeiro nasceu em 2008. O segundo foi comissionado em 2015 para estrear mundialmente em São Paulo, na Mostra Internacional de Teatro. A cidade onde a peça estreou é a mesma onde Fernando Belo a apresenta agora, pela primeira vez em português, numa tradução que ele mesmo assinou.

Duas histórias atravessadas pela tentativa de seguir em frente. Dois homens que não sabem o que fazer com o que perderam, um paralisado pela dor, o outro em constante fuga. Um espetáculo íntimo sobre amor, memória e os vínculos que persistem mesmo na ausência.

Depois da peça, conversei com Fernando Belo. Falamos sobre perda, sobre referências, sobre o que move uma pesquisa assim. Ele trouxe C.S. Lewis, Um Luto Observado, escrito depois que Lewis perdeu a mulher, não como consolo, mas como exercício de compreensão. A tentativa de catalogar a dor e a descoberta de que ela não se deixa catalogar.

O luto é individual. Tem pessoas que passam sem deixar marca, outras deixam um buraco que a gente não sabia que existia. Não resolve. Mas coloca palavras onde só havia silêncio.

Ficha técnica

Texto: Simon Stephens · Direção e atuação: Fernando Belo · Desenho de luz: Caetano Vilela · Música original: André Abujamra
Teatro do Núcleo Experimental

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