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Realpolitik I

Por Marcelo Fava · 19 MAI 2026
Realpolitik I

No Brasil, a impunidade das corporações costuma ser proporcional à dimensão dos desastres que elas provocam. Laudos ambientais manipulados, bacias hidrográficas extintas e cidades soterradas são frequentemente recebidos com o silêncio dos tribunais. Realpolitik se ergue para preencher essa ausência de justiça. Escrita em um período no qual o país normalizou a contabilidade de mortes em larga escala, a dramaturgia foge da ficção especulativa. Ela desenha um mapa claro de como a negligência opera.

A premissa, originada da observação de uma estrutura teatral em Toronto, ganhou contornos territoriais e a força de uma denúncia real. O espaço cênico despido de conforto serve de câmara para a tensão. De um lado, o presidente de uma mineradora tenta gerenciar os danos e controlar a narrativa pública de uma catástrofe. Do outro, um jornalista investigativo em estágio avançado de câncer, armado e portando um artefato explosivo, entra no escritório com o propósito de extrair uma confissão. Ao longo de uma hora de pressão contínua, os personagens disputam o controle da situação até o executivo ceder. O repórter garante o envio da gravação para a redação minutos antes do desfecho final, certificando-se de que a denúncia exista mesmo na sua ausência.

Manter um espetáculo que disseca a ética corporativa tem um custo. A montagem permaneceu em cartaz durante dois anos de forma independente, esbarrando na rejeição de curadorias e na ausência de patrocínio, pois raras empresas financiam análises que condenam o próprio mercado. Essa contradição transborda do palco para a realidade. Uma das instituições que mais injetam dinheiro nas artes no país é a mesma responsável por uma catástrofe ambiental sem precedentes. Utilizando as sobras de orçamentos milionários, mantém um museu a céu aberto monumental na região que ajudou a devastar. O teatro, neste caso, funciona como um recurso de memória contra o apagamento deixado pela lama.

Helena Taliberti caminhava pela Avenida Paulista quando a barragem rompeu. Seus dois filhos, a nora grávida do primeiro neto e o pai deles estavam em uma pousada na cidade atingida. Planejavam visitar os museus locais. Nenhum deles retornou. Sete anos após o soterramento que encerrou 272 vidas, o sistema judicial brasileiro não produziu uma única condenação criminal.

A inércia dos tribunais, no entanto, não paralisou quem ficou. Helena e sua rede de apoio criaram um instituto para dar prosseguimento ao trabalho dos filhos. Uma era advogada e defensora dos direitos das mulheres. O outro, arquiteto e ambientalista. A avalanche de rejeitos tentou soterrar também o alcance dessas existências. O instituto funciona como um obstáculo a esse apagamento, convertendo a memória familiar em ação civil direta.

É nesse rastro que Realpolitik encontra sua razão de existir. Nos espaços onde a investigação perde tração e a justiça falha, a encenação assume o registro dos fatos. Nomear as vítimas deixadas para trás pelas planilhas de risco calculado é uma defesa prática da sanidade coletiva. O lema assumido pelo instituto sintetiza essa resposta histórica: “Tentaram nos enterrar. Não sabiam que éramos sementes.”

Ficha técnica

Dramaturgia: Daniela Pereira de Carvalho · Direção: Guilherme Leme Garcia e Gustavo Rodrigues · Com: Pedro Osório e Augusto Zacchi (Cia Fotiá)
Teatro Estúdio, São Paulo

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