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Uma Velha Canção, Quase Esquecida

Por Marcelo Fava · 11 MAI 2026
Uma Velha Canção, Quase Esquecida

Não tive Alzheimer na família. Mas tive avó. E toda avó chama pelo menos três nomes errados antes de acertar o seu. Você escuta os irmãos, os primos, talvez um tio. Até ouvir o seu. Sempre o último da fila.

A desintegração da memória não faz barulho. Ela começa pelos dias recentes, pelo ontem, pelo nome que estava na ponta da língua. O que fica são as memórias. A infância, o cheiro, a canção que a mãe cantava.

Uma Velha Canção, Quase Esquecida nasceu de uma entrevista. A dramaturga irlandesa Deirdre Kinahan ouviu o ator Bryan Murray falar sobre o próprio diagnóstico de Alzheimer e transformou essa conversa em peça. Em 2023, Murray subiu ao palco do Abbey Theatre, o teatro nacional da Irlanda, para contar a própria história. Não uma metáfora. Ele mesmo, de dentro. A obra rendeu a Kinahan e Murray o Pratchett Prize em 2024, por desafiar o estigma da doença. No Brasil, a Cia. Ludens, companhia dedicada há mais de duas décadas à dramaturgia irlandesa, traz Genezio de Barros, 75 anos e mais de cinco décadas de teatro, para carregar essa herança. Não o mesmo diagnóstico. A mesma geração, o mesmo corpo que conhece o peso do tempo. Dois atores, dois países, uma pergunta em comum.

Isabelle Huppert já disse que o teatro resiste a tudo: guerras, censuras, penúria. Esse homem encontrou uma forma de não desaparecer. Escrever. Em cena, ao seu lado, Iuri Saraiva, a versão mais jovem do mesmo homem. Não um personagem separado. A memória que ainda sabe quem ele foi. A música entra e sai. Quando a palavra vacila, o som sustenta.

“Eu não consigo me encontrar.” Essa frase, lançada no meio da peça, não é desespero. É a pergunta que todos carregam em silêncio e que o Alzheimer, por fim, diz em voz alta. O que resta quando a memória vai embora não são os fatos. São os afetos. Um nome. Uma canção. Alguém chamado Sara.

No final, os dois se viram para a banda. A luz apaga. O som é o último a ir. O que Uma Velha Canção, Quase Esquecida carrega não é o peso da doença. É a recusa em deixar que ela defina quem esse homem foi.

Ficha técnica

Texto: Deirdre Kinahan · Companhia: Cia. Ludens · Elenco: Genezio de Barros, Iuri Saraiva
Sesc São Paulo

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