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Fafá de Belém, o Musical

Por Marcelo Fava · 25 JUN 2026
Fafá de Belém, o Musical

Entrei no teatro sem repertório nenhum de Fafá de Belém. Ouço outro tipo de música, e ela tinha passado despercebida até esse musical me fazer reconhecer sua importância. No meio do espetáculo, descobri uma mulher plural: a menina do Pará, a cantora das rádios, a mulher que hoje sobe num palco da ONU. E percebi que tudo isso vinha de uma mesma decisão política, tomada antes das Diretas Já e da COP30.

Antes de qualquer holofote, há uma casa onde política era assunto de mesa. Às vezes, a conversa seguia livre; outras, baixava de tom e parava quando uma criança entrava na sala. Fafá cresceu entre essas vozes e interrupções, entendendo a política antes mesmo de lhe dar esse nome.

Quando gravou seu primeiro disco, podia ter feito o esperado de uma voz vinda do Norte: traduzir-se para o gosto do Rio e de São Paulo. Fez o oposto. Carimbó, siriá e os mitos do Pará, vistos pela indústria fonográfica do Sudeste como curiosidade regional. Ela colocou tudo isso no centro, num país que tratava a Amazônia como recurso e rota de passagem.

A disputa pelo centro chegou às ruas em 1984. Gravou “Menestrel das Alagoas” para um senador que morria lutando pelas eleições diretas, e a canção virou hino de praça. Numa dessas noites, em São Paulo, tentaram impedir que ela subisse ao palanque. Foi um homem que ainda não era presidente quem resolveu: “Ela vem com a gente”. E ela cantou o Hino Nacional para a multidão, fora do tom solene exigido pelo Estado, devolvendo ao povo um símbolo que a ditadura tentava manter sob controle.

Quarenta anos depois, a pauta ganhou outro nome. Em 2002, gravava uma canção sobre os rios da Amazônia morrendo. Em 2022, subiu a um painel da ONU como embaixadora do IPAM e disse que a floresta em pé significa pouco se quem vive nela continuar invisível. Em 2025, abriu a COP30 na sua própria cidade, com carimbó e tecnobrega diante de chefes de Estado.

Democracia, meio ambiente, patrimônio, clima. Em cinquenta anos, as pautas mudaram de nome algumas vezes. O que não mudou foi o lugar de onde ela fala: o Pará, ocupando o centro do mapa político brasileiro como se sempre tivesse estado ali.

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