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Leonardo Netto – A Demora de Virar Autor

Por Marcelo Fava · 16 AGO 2026

Saí do Sesc Guarulhos direto para a banquinha de venda, montada ali na saída. “O Motociclista no Globo da Morte” não me deixou só emocionado — me deixou com aquela curiosidade de quem assiste Mindhunter tentando decifrar o perfil de um criminoso, só que aqui o suspeito era o próprio autor do texto. Comprei dois livros do Leonardo Netto antes de sair do teatro. Esta primeira parte da conversa é sobre a carreira que veio antes desse texto.

Leonardo Netto tinha 21 anos quando pisou pela primeira vez num palco profissional, em 1989, na peça que fechava sua turma na CAL, Se Correr o Bicho Pega, Se Ficar o Bicho Come, dirigida por Amir Haddad. Foram três meses de ensaios diários e duas temporadas ao lado de um diretor que ele lembra quase como um professor. “O Amir é uma figura extremamente intensa, inteligente e sábia, que fala bastante, e pudemos usufruir de todo esse talento dele durante os ensaios e pelas duas temporadas que fizemos.”

Se aquilo foi a formatura, os anos que vieram a seguir, ao lado de Aderbal Freire-Filho no Centro de Demolição e Construção do Espetáculo, foram um processo de continuidade. Foram quatro peças com o grupo e, muitos anos depois, mais duas peças com Aderbal, já sem o grupo, que havia deixado de existir. A diferença entre as duas experiências, segundo ele, não foi de qualidade. Foi de tempo. Dali em diante, virou ator sem casa fixa por opção. Passou pela Companhia Teatral do Movimento, de Ana Kfouri, pela Cia dos Atores, e foi dirigido por nomes como Nildo Parente, Celso Nunes e Luiz Arthur Nunes. Com Cláudio Marzo e Paulo José, trabalhou como ator no mesmo elenco. “Essa mistura me fascinava muito mais: a variedade de profissionais, abrir a cabeça para outras formas e visões.”

Para os Que Estão em Casa
Para os Que Estão em Casa

A dramaturgia demorou a chegar. Foram mais de duas décadas de palco até o primeiro texto autoral, em 2014. Netto é o primeiro a admitir o quanto de autocrítica havia ali. Ele escreve um texto, guarda na gaveta por meses, e só depois volta para reavaliar o que não funcionou. “Durante muito tempo, essa voz me dizia que eu não tinha jeito ou talento para a escrita.” A virada veio quando ninguém quis escrever uma ideia que ele tinha para uma peça. Netto resolveu escrever ele mesmo. O texto, Para os Que Estão em Casa, foi indicado ao Prêmio Cesgranrio, na categoria de melhor texto, e essa aprovação bastou para ele continuar.

Hoje o processo de escrita carrega um resquício direto da carreira de ator. Ele lê tudo em voz alta enquanto escreve, testando se as falas cabem na boca de quem vai dizê-las. “O fato de eu também atuar ajuda bastante nessa questão da embocаdura, de fazer o texto caber naturalmente na boca de quem fala. Isso evita que o texto fique empolado, formal demais ou pouco coloquial.”

Há também o momento em que os personagens escapam do que foi planejado. Netto descreve isso quase como um aviso vindo de dentro do próprio texto. “É como se os personagens dissessem: ‘a gente não quer isso’, ‘isso não vai ser bom, vamos por outro caminho’. Eu aprendi a seguir essa intuição totalmente.” Curiosamente, ele só escreveu para si mesmo interpretar uma vez. O texto para Eduardo Moscovis, por exemplo, não foi encomenda. A imagem do ator simplesmente apareceu na cabeça dele por volta da página dois. “Não vejo tanta diferença assim na hora da escrita em si. Eu não costumo usar meus textos como um veículo exclusivo para eu mesmo brilhar no palco.”

Netto também defende que um texto teatral só está de fato pronto depois de montado, ideia que atribui a Bertolt Brecht, que considerava sua peça Turandot inacabada por nunca tê-la visto em cena. No Pequeno Circo de Mediocridades, dirigido pelo próprio Leonardo Netto, o texto ainda mudava durante os ensaios. “É essencial passar pela prova do palco para dar a forma definitiva ao texto.”

Fora da sala de escrita, Netto assume posições públicas claras. Mas faz questão de separar isso do processo criativo. “A questão da Lei Rouanet é um posicionamento político e de cidadão, para rebater uma falácia criada pela extrema direita. Isso não entra na minha escrita.” O que realmente atravessa o trabalho, segundo ele, é a autocrítica do próprio meio teatral sobre o esvaziamento das plateias que marcou o período pré-pandemia. “Eu acho o contrário: a culpa é de quem faz teatro. Não quero que o público saia do teatro entediado, pensando ‘ainda bem que acabou’. Quero que as pessoas saiam abaladas, incomodadas, modificadas.”

A segunda parte desta entrevista, sobre O Motociclista no Globo da Morte e Pequeno Circo de Mediocridades, sai em publicação separada.

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