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Chez Toi – Em Seu Lugar

Por Marcelo Fava · 10 JUN 2026
Chez Toi – Em Seu Lugar

Sempre achei que memórias pendentes ganham contornos físicos. Em algumas casas, o passado teima em não esvaziar os cômodos. A saudade vira uma espécie de âncora invisível. Existem fotografias pelas quais passamos todos os dias e que ainda apertam o peito. A pessoa já foi, mas a espera de quem ficou não deixa o ar circular.

Foi essa atmosfera que encontrei no apartamento de Abigail. O isolamento de uma mulher ancorada no tempo, cercada pela falta daquilo que lhe foi tirado. Ali, a solidão não é apenas um estado emocional. Ela funciona como um móvel antigo e intransponível no centro da sala. O que mantinha Laura caminhando pelos corredores não era o fim da vida. Era o olhar de Abigail, uma saudade densa o bastante para prender a companheira a um porta-retrato. Não como assombração. Como um instante suspenso.

Entramos na sala acompanhando a dor de uma mulher que perdeu seu amor. Aos poucos, notamos que as ausências se multiplicam. Amar outra mulher num país que ainda não reconhecia esse direito cobrou um preço alto. Emily, a filha levada na infância e afastada pela burocracia do preconceito, cresceu transformando a ausência em ressentimento, a única forma de presença que aprendeu a cultivar.

Um luto alimenta o outro. E esse tipo de afastamento não tem velório. Ele apenas fica.

Quando a memória ganha corpo e pede desculpas por um custo que não foi seu, encaramos o instante mais injusto da obra. A culpa por um passado interrompido não pertence a quem partiu. Pertence ao tempo que julgou e desmanchou aquela casa. Ainda assim, é quem partiu que carrega o fardo.

A libertação surge do imprevisto. Apenas alguém imune às cargas daquele ambiente consegue agir sem o medo de manusear os cacos. Um pequeno acidente, um choque involuntário na inércia da tristeza, estilhaça a moldura de vidro. A herança de quem se despede não é o esquecimento. É a chance de uma vida recomeçar onde a outra pôde, enfim, descansar.

Dan Rosseto conhece bem o que o não-resolvido faz com as pessoas. Desta vez, atravessou a morte para encontrar a porta.

Ficha técnica

Texto e Direção: Dan Rosseto · Com: Barbara Bruno, Bianca Rinaldi, Viviane Figueiredo, Nalu Albuquerque
Cenografia: Dan Rosseto e Fabio Camara · Figurino: Fabio Camara e Giovanna Campanharo
Teatro Nair Bello, São Paulo

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