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Meu Garoto

Por Marcelo Fava · 09 JUN 2026
Meu Garoto

Hermes Carpes passou anos encenando conflitos conjugais pela lente da comédia. Em algum momento, decidiu ir mais fundo. Foi buscar essa história na internet — desabafos anônimos e relatos que circulam em silêncio. Do material alheio fez uma autoficção. Bruno tem quase 50 anos. Matheus tem 19. A peça pergunta logo de saída: você se reconhece aqui?

Te digo que sim. Mas de outra forma.

Saí de casa aos 18 anos. Desde que me conheço como gay, morei sozinho e fui atrás das minhas coisas. Meu companheiro atual tem 16 anos a mais. Sempre nessa esfera: livre do desejo de aprovação familiar, sem que ninguém me apresentasse ao mundo. O Matheus da peça veio de outro lugar. Mora com os pais, não saiu do armário, carrega a sombra de uma família religiosa que ignora quem ele é. A dinâmica é a mesma. A história, não.

A psicanálise tem nome para esse movimento. Freud chamou de escolha narcísica de objeto: buscar no outro não o que nos completa, mas o que já fomos ou o que nunca conseguimos ser. O jovem, nesse caso, não é um parceiro. É um espelho. E o espelho não envelhece. A montagem deixa isso visível de um jeito que o texto sozinho não conseguiria: Camilo Guadalupe e Murilo Moraes alternam o mesmo Matheus. É um espelho dentro do espelho: jovens reais, ainda tateando o próprio caminho, interpretando um personagem igualmente em formação. O desejo de Bruno não é pelo rapaz específico. É pela figura. A juventude ali é uma peça intercambiável.

Vinte anos e cinquenta anos não habitam o mesmo tempo, mesmo quando dividem a mesma cama. De um lado, um homem que já carrega o peso do que viveu. Do outro, alguém que ainda é promessa — de tempo, de possibilidade, de um futuro que o mais velho não pode mais ter. É esse horizonte que seduz, não a pessoa. A comunidade que lutou por visibilidade criou, internamente, sua própria hierarquia. O corpo jovem como moeda. A maturidade como ameaça a ser negada ou comprada. Quando o desejo aponta para alguém que ainda não sabe quem é, de quem é a história que está sendo contada?

Às vezes a vida termina igual à peça.

Ficha técnica

Texto e direção: Hermes Carpes · Elenco: Hermes Carpes e Camilo Guadalupe · Ator alternante: Murilo Moraes
Teatro Shopping Metrô Tatuapé — Sala Léa Garcia, São Paulo

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