As Centenárias
Há musicais que admiramos pelo verniz estético e outros que nos ganham pelo reconhecimento de uma verdade. A diferença não está no tamanho da produção, mas na conexão. Enquanto franquias importadas operam na fantasia de arquétipos distantes, as obras enraizadas na cultura e na identidade brasileira falam de outro lugar. Quando a cena representa um povo real, com suas tradições e sotaque, a identificação surge do respeito — sem exigir que aquela história seja a sua.
As Centenárias nos guia ao sertão do Cariri, na divisa da Paraíba com o Ceará. A obra aborda o ofício das carpideiras — mulheres pagas para rezar e chorar nos velórios, numa tradição que mistura fé, rito e subsistência. Newton Moreno escreveu o texto original em 2007. Agora chega como musical, com canções de Chico César, nascido nessa mesma geografia. Chico César é paraibano. O sotaque nas melodias não é reconstituição — é memória. As canções têm a cadência do repente nordestino, aquela forma oral de contar que embala tanto quanto provoca.
Zaninha e Socorro têm mais de cem anos. Não é exagero poético — é o ponto de partida. Um século convivendo com o fim alheio, e ainda aqui. Mulheres que vivem do luto dos outros e passam a peça inteira adiando o próprio. A morte aparece, negocia, insiste. E elas encontram no humor e no desejo as únicas moedas capazes de adiar o pagamento.
Esse jogo tragicômico repousa em três atores por uma hora e quarenta. Laila Garin e Juliana Linhares equilibram pesar, humor e desejo. Leandro Castilho assume vários personagens ao longo da peça, incluindo a própria morte. A direção de Luiz Carlos Vasconcelos aposta no simbólico e ambienta o trio num campo amarelo gradeado por linhas brancas, com um portal de madeira ao fundo simulando um caixão.
Não é preciso ser nordestino para sair tocado. Quando a cultura é tratada com respeito, ela atravessa qualquer fronteira.
Ficha técnica
Texto: Newton Moreno · Canções: Chico César · Direção: Luiz Carlos Vasconcelos
Elenco: Laila Garin, Juliana Linhares, Leandro Castilho