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Uma Voz Humana

Por Marcelo Fava · 30 JUN 2026
Uma Voz Humana

Saí do Iquê pensando em quanto tempo uma ligação pode durar quando ela é a última, e em quanto isso depende de quem está do outro lado do fio.

Uma Voz Humana, peça que Jean Cocteau escreveu em 1930, parte de uma mulher, um quarto em desordem, um telefone. Tudo parado no instante em que ela recebeu a notícia, como se o resto da casa também esperasse o fim daquela ligação. O amante de cinco anos vai se casar com outra no dia seguinte e liga para se despedir. A ligação cai algumas vezes, ele some na linha, ela espera, ele volta, ela continua. Cocteau chamava o telefone de “arma assustadora”, o aparelho que aproxima também isola. A mulher fica presa àquele fio; a despedida passa a organizar todo o tempo da cena.

Na montagem da Sociedade Arminda, o telefone fixo virou smartphone, a camada mais fácil de ver, porque trocar o aparelho atualiza o tempo da cena sem necessariamente mudar seu sentido. Uma câmera segue cada gesto em tempo real, sem corte possível, vendo tudo e nunca respondendo, quase no lugar do amante ausente. É diante desse olhar que Larissa Nunes sustenta voz e canto ao mesmo tempo, em seu primeiro monólogo.

A atriz contou que resistiu ao texto antes de aceitar o papel, porque a ênfase no abandono lhe parecia repor um lugar do qual queria escapar. Foi nesse atrito que a montagem encontrou seu eixo — a própria equipe fala de uma mulher que se compreende e se liberta, e a dramaturgia aproxima histórias de amor e histórias de ausência que, em algum momento da trajetória de uma mulher negra, se confundem. Isso me fez lembrar a socióloga Ana Cláudia Lemos Pacheco, que estuda como a mulher negra é vista como naturalmente forte, o que nega a ela o direito ao cuidado, ao descanso e ao colapso.

Em 1930 o telefone sustentava uma espera. Em 2026 ele continua ligando duas pessoas, mas já não determina sozinho o destino da mulher que está do outro lado da linha. Cocteau escreveu a peça como um monólogo feito de palavras e de silêncios; aqui, onde havia silêncio, há canto. Enquanto canta, ela não desaparece dentro do abandono.

Ficha técnica

Texto original: Jean Cocteau (1930) · Dramaturgia, dispositivo de cena e direção: José Fernando Peixoto de Azevedo
Atuação: Larissa Nunes · Direção musical: Eloíza Paixão · Câmera em cena: Samurai Cria
Realização: Sociedade Arminda e Teatro Iquê, São Paulo

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