Anywhere II
Em ANYWHERE, um homem fica retido num aeroporto, em qualquer lugar do mundo, esperando um documento que decide se ele segue, fica ou desaparece. A cena é ficção. O mecanismo, não. Antes daquele balcão já havia uma vida inteira vivida em código, com a família vigiando e a comunidade rejeitando, o gesto sempre contido na frente de quem não pode saber.
Pesquisadores chamam isso de sexílio, a expulsão social que antecede a expulsão geográfica. Quando a fuga finalmente acontece, ela só formaliza um deslocamento que já estava em curso. Mais de 60 países ainda criminalizam relações entre pessoas do mesmo sexo e cerca de uma dúzia prevê pena de morte. É nesse mapa que o sexílio se confirma todos os dias, muito antes de qualquer pedido de asilo ser feito.
Só por volta de 40 países reconhecem essa perseguição como motivo válido de refúgio. Mas esse reconhecimento depende de prova. A mesma identidade que motivou a perseguição na origem tem de ser declarada e detalhada para o Estado, que vai decidir se ela é “verdadeira” o bastante. Depois, já no país de acolhida, a mesma pessoa volta a calcular o quanto pode mostrar no trabalho, na vizinhança e na própria comunidade de compatriotas. Visível para ser salva, invisível para sobreviver.
Porque a chegada também não é o fim da travessia. O migrante comum encontra na própria diáspora a primeira rede de apoio, com moradia, idioma e gente que entende de onde ele vem. Para quem fugiu por ser LGBT, essa rede costuma reproduzir exatamente a vigilância de origem. O exílio se duplica: primeiro do país, depois da comunidade que deveria recebê-lo.
ANYWHERE não nomeia esse sistema, mas o atravessa cena após cena. O aeroporto do espetáculo é qualquer sala de espera onde alguém tem de justificar quem é, e o sistema segue exigindo provas muito depois de o passaporte receber o carimbo.
Ficha técnica
Companhia: Cia Artera de Teatro