Outra Revolução dos Bichos
Ao apagar das luzes, um som gutural toma a sala. Não tem microfone. É só Gustavo Damasceno soltando um dos sons mais bonitos que já ouvi dentro de um teatro. Sozinho no palco, ele passa de porco a cavalo a corvo, alternando ritmo, volume e timbre, mudando a estatura e a envergadura a cada personagem. Por trás disso, duas décadas de treino em mímica corporal, e dá para sentir o quanto custa sustentar tudo isso sem ninguém para dividir a cena. Poucas vezes vi uma entrega assim.
George Orwell escreveu essa história nos anos 1940, como sátira ao stalinismo, numa fábula sobre uma revolução que promete igualdade e termina produzindo uma nova hierarquia. Publicado em 1945, o livro chegou a ser recusado por editoras britânicas por causa da aliança de guerra entre o Reino Unido e a União Soviética. Daniela Pereira de Carvalho desloca esse texto para outro tempo e outro país.

Em 2013, em meio às manifestações, Daniela decidiu começar essa reescrita, depois de acompanhar de perto amigos enfrentando repressão. A montagem já ocupava o palco em 2022, com vinte atores. Um ano depois, o diretor Bruce Gomlevsky a transformou em monólogo. Nesse movimento, a trajetória do espetáculo parece ecoar o tema da peça, um teatro cada vez mais precário, em que um ator sozinho carrega o que antes era dividido por muitos.
As mesmas formas se repetem em outra escala — vinte atores viram um, vários personagens viram um corpo, uma revolução coletiva vira poder concentrado. A crítica já apontou os jogos de poder, domínio e submissão presentes na radicalização de qualquer ideologia. O que me interessa é o mecanismo, como uma estrutura pensada para muitos termina nas mãos de poucos.
Daniela foi a primeira entrevistada do M ARTE, e seguimos em contato por WhatsApp e Instagram desde então. Ela evita a política partidária, mas trata o teatro como algo inerentemente político — um olhar sobre o mundo parecido com o meu, e que essa peça só confirma.
Ficha Técnica
Texto: Daniela Pereira de Carvalho
Direção: Bruce Gomlevsky
Elenco: Gustavo Damasceno
Teatro Estúdio, São Paulo — em cartaz até 4 de setembro de 2026