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A Hora do Boi

Por Marcelo Fava · 30 MAR 2026
A Hora do Boi

O abatedouro não foi construído para abrigar afeto. Cada detalhe do lugar — a faca, a ordem, o silêncio obediente — existe para garantir que isso não aconteça. A Hora do Boi é sobre a vez em que isso aconteceu.

Seu Francisco passou a vida com a cabeça baixa, ensinado a não olhar nos olhos daquilo que iria abater. Foi assim até o dia em que trouxe um bezerro ao mundo com as próprias mãos e o criou como filho. Chico era diferente: alegre, curioso, com alma de poeta. Ficava encostado na cerca nas madrugadas, como se escutasse algo que os outros não ouviam. Nesse convívio, a dureza do homem foi cedendo. O afeto não teve um momento, teve um tempo. E foi esse tempo que deu nome ao que Francisco nunca havia sentido antes.

Vandré Silveira sustenta os três sozinho em cena: o capataz, o boi e São Francisco de Assis como testemunha do mundo. A respiração muda, a coluna dobra, o centro de gravidade desce até o chão. Ao fundo, Vida de Gado de Zé Ramalho: o gado que marcha e o homem que marcha junto, sem saber que são a mesma coisa.

A voz do patrão chega seca, sem cerimônia. O decreto é econômico: o animal tem preço marcado e poesia não aparece na planilha. Francisco recebe a ordem como quem recebe uma sentença. Sem direito a testemunha, sem possibilidade de recurso. No lugar de Deus, o capital exige o contrato.

Francisco segura a navalha e encara os olhos de Chico. No silêncio do abatedouro, escuta no bicho o eco das madrugadas partilhadas. É o amor que trava a mão.

Em 2018, um boi Nelore fugiu de uma feira agropecuária na Bahia e foi encontrado nadando em mar aberto. A imagem real que deu origem ao espetáculo. Quando Francisco e Chico viram as costas para o curral e olham para o horizonte, é essa memória que os espera. O mar que acolheu o Nelore fugitivo não tem dono, cerca nem vencimento. É para lá que os dois olham.

“Pai me abrace, vamos juntos morar no fundo do mar.”

Ficha técnica

Com: Vandré Silveira

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