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Ensaio Sobre o Terror

Por Marcelo Fava · 01 ABR 2026
Ensaio Sobre o Terror

Em Ensaio sobre o terror, marco fundacional da investigação da Sociedade Arminda, o palco abdica da ilusão em favor do escrutínio. A partir do conto “Pai contra mãe”, de Machado de Assis, o diretor José Fernando Peixoto de Azevedo instaura um dispositivo de dissecação histórica. O foco recai sobre Cândido Neves, homem branco, falido e sem meios de produção, que a vida inteira recusou um ofício. Para não ser tragado pela miséria, agarra-se ao único capital que o impede de ser escória no Brasil oitocentista: a sua branquitude. É esse status que o autoriza a atuar como caçador de pessoas escravizadas.

Pressionado pela indigência, Cândido caminha para abandonar o filho na Roda dos Enjeitados. No trajeto, intercepta uma mulher negra, grávida, foragida. A captura não é desvio moral: é a transação que viabiliza o futuro da família branca. A encenação recusa qualquer leitura sentimental. Cândido não é vítima desviada pelo sistema, mas seu operador mais barato — aquele que executa o trabalho sujo porque não pode se dar ao luxo da compaixão.

A dramaturgia promove colisões temporais, aproximando o ressentimento desse caçador histórico ao extremismo político das invasões de 8 de janeiro. Ambos compartilham a frustração gerada por uma promessa de supremacia não concretizada, despertando uma violência predatória. É a radiografia do fascismo à brasileira.

Tudo ocorre sob a mira de uma câmera ao vivo, que mimetiza a vigilância colonial e o monitoramento policial contemporâneo. O aparato não documenta: distribui responsabilidade. Diante da agressão pública, as pessoas “olham, entendem do que se trata e seguem caladas”. A multidão sabe que a mulher é lida como propriedade. O silêncio não é omissão — é validação estrutural, prova de que a lógica escravocrata pré-autoriza o linchamento.

A câmera insere o público na posição de testemunha muda, premissa expandida pela trilogia com Elisa em fuga e Depois do ensaio, Nora, Persona. Ao expor nossa passividade, a obra prova que o terror é um método contínuo de governabilidade.

Ficha técnica

Direção: José Fernando Peixoto de Azevedo · A partir de “Pai contra mãe”, de Machado de Assis
Sociedade Arminda

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