Medea de Sêneca
A carne do teatro não envelhece. Ela endurece. Ganha camada. Fica pedra.
Esqueça a Grécia por um momento. O que acontece no palco do Sesc Consolação vai além da feiticeira da Cólquida. O que está ali é a teimosia bonita de uma geração que não aceita desaparecer. Não tem nada de nostalgia nisso. É presença. É posição.
Ver Walderez de Barros, Mariana Muniz e Plínio Soares em cena provoca um tipo raro de impacto. Não é lembrança afetiva. É constatação. Eles estão ali com tudo o que viveram. Num meio que costuma tratar idade como descarte, Gabriel Villela faz o oposto. Ele evidencia o tempo. Transforma ruga em paisagem. Faz da voz mais grave uma força dramática. Nada é escondido. Tudo é assumido.
Quando Walderez pisa no palco, não traz apenas Medeia. Traz uma história inteira do teatro brasileiro. Anos de bastidor, ensaios exaustivos, textos memorizados de madrugada, estreias que tiram o sono. Existe uma liturgia na presença desses atores que não se aprende em curso algum. Eles dominam o silêncio. Sabem esperar. Sabem sustentar o tempo sem pressa.
A técnica aqui não busca aplauso fácil. É resistência. A estética de Villela é densa, marcada por figurinos que pesam como armaduras. Ele exige muito desses corpos. Sessenta. Oitenta anos. Ainda assim, eles sustentam cada cena com firmeza. Não há fragilidade. Há consistência.
A cenografia de J.C. Serroni cria a sensação de abismo. A iluminação destaca rostos que carregam experiência. Mas o que realmente mantém tudo de pé são os atores. A peça ultrapassa o texto de Sêneca. O que se vê é uma demonstração de permanência.
Não vá apenas pela história clássica. Vá para assistir profissionais que transformam palco em ofício. Teatro feito com rigor, com entrega, com verdade.
Num tempo em que tudo parece descartável, eles continuam. E continuam com força.
Ficha técnica
Direção: Gabriel Villela · Cenografia: J.C. Serroni
Elenco: Walderez de Barros, Mariana Muniz, Plínio Soares
Sesc Consolação, São Paulo