Otávio Martins – Produza-se
Fui ver “Entre Irmãos” no Teatro Virada Lata há alguns meses e saí de lá com vontade de escrever sobre a peça. A resenha acabou me aproximando de Otávio Martins e despertando a curiosidade de conhecer melhor sua trajetória, que começou ainda adolescente, numa banda cover de brega, passou pela Economia na Unicamp e pela Companhia do Latão. Esta é a primeira de três partes dessa conversa, sobre o caminho que o trouxe até “Entre Irmãos”.
Antes de qualquer palco profissional, Otávio tinha uma banda cover de brega que tocava em festas universitárias no interior de São Paulo, a Cleomar Sampaio and Sweet Aliens. “Foi minha primeira experiência, na verdade, no palco. Eu nunca fui um grande cantor, mas eu sou afinadinho.”

Ele queria fazer Artes Cênicas. Os pais acharam um absurdo. Tentou História e ouviu que ia virar “professor de cursinho”. Escolheu Economia na Unicamp calculando que não passaria no vestibular, e passou. O detalhe que ele conta rindo é que o Instituto de Economia fica ao lado do Instituto de Artes: “Pela minha janela, eu vi um monte de gente trabalhando coisa de teatro e eu falava: cara, eu tô num lugar errado.”
Em 1989, ganhou uma bolsa de Economia para estudar na Itália. Quando chegou lá, trancou a bolsa e foi fazer teatro. A vontade já vinha de antes. Em 1985, ainda no colégio, encenou uma versão de “O Muro”, de Jean-Paul Sartre, numa semana de ciências do curso de Filosofia. “Me identifiquei com isso, fiquei com isso na cabeça.” Mas o estopim, segundo ele, foi ver “Eletra com Creta”, com direção de Gerald Thomas e um elenco que reunia Beth Goulart, Bete Coelho e Maria Alice Vergueiro: “Cara, é possível fazer isso? Eu fiquei louco com aquilo.”
De 1994 a 1999, foi um dos fundadores da Companhia do Latão. Saiu em 2000, quando Paulo Autran o convidou para o elenco de “Vestir o Pai”. Foi aí que decidiu começar a se produzir. Otávio perguntou ao veterano como ele escolhia um papel. Autran respondeu que via se a peça era boa, se o personagem valia a pena, se o público ia querer. Então, Otávio perguntou se ele nunca tinha se apaixonado por um personagem na peça errada. “Meu filho, é como se apaixonar pela pessoa errada na vida. Uma hora você se dá conta”, disse Autran, e completou: “Produza-se, faça, não fica esperando o convite dos outros.”

O conselho virou “Os Jogadores”, em 2004, sua primeira produção independente. Antes de estrear, mostrou o texto a Autran, que leu e decretou: “Você vai fazer o protagonista.” E foi além: “Você precisa de um antagonista que seja um ator que você admira, alguém por quem você tenha que correr atrás.” Otávio chamou Edgar Castro, companheiro dos tempos da Cia. do Latão.

Foi só em “Três Dias de Chuva”, anos depois, que Otávio dividiu pela primeira vez o palco com Fernando Pavão. Antes disso, os dois já tinham trabalhado juntos, mas do outro lado: Otávio dirigiu Pavão em “Vamos?” e em duas versões de “Caros Ouvintes”. A ideia de escrever “Entre Irmãos” nasceu bem depois, numa dessas ligações longas que os dois têm o hábito de fazer. “A gente estava comparando como a gente tem a mesma idade, só que ele tem pai, mãe e dois filhos, e eu não tenho pai, não tenho mãe e não tenho filhos, eu sou gay.” Da diferença nasceu a vontade de escrever sobre a relação fraternal: “Tem sempre aquela coisa do irmão que vai e do irmão que fica. Um irmão que desbrava o mundo e o outro que mantém, que conserva. Isso é uma relação que sempre vai haver em todas as famílias, e era isso que a gente queria explorar.”
Na TV, o papel mais afetivo da carreira também não foi o primeiro. Otávio estreou em 2006 na série “Mothern”, do GNT, ao lado de nomes como Domingos Montagner e Rafinha Bastos, também em suas primeiras experiências na TV.

Anos depois, escolheu “As Aventuras de Poliana” em vez de outra novela que o convidou na mesma época, porque era um projeto infantil: “Eu faria um grande vilão infantil cômico para uma geração inteira. Essa foi a melhor decisão que eu fiz na minha vida.” Roger virou referência de infância para uma geração inteira, algo que ele guarda com carinho. Mas faz questão de separar visibilidade de vocação. “A minha onda é o teatro. Tanto que eu fui ser mais famoso já mais velho.”
A segunda parte desta entrevista, sobre a construção de “Entre Irmãos” e o nascimento de “Asas de Pano”, sai em publicação separada.