Uma vez por semana, o que eu vi

O que assisti, escrevi e vale a pena conferir — direto na sua caixa de entrada.

27’S

Por Marcelo Fava · 14 MAI 2026
27’S

A história começa e termina no mesmo lugar. Ele acorda de uma bebedeira — e recomeça.

Numa sala intimista, Augusto Zacchi sustenta sozinho sessenta minutos de um homem em colapso. Você sente a sua respiração, o calor. Quando o corpo cede, você testemunha.

O rock sempre soube o que fazer com os seus mortos. Jimi Hendrix morreu aos 27. Kurt Cobain, Janis Joplin, Jim Morrison, Amy Winehouse — todos aos 27. A máquina os eternizou no auge — congelados, perfeitos, inalteráveis. Virgílio chegou lá e continuou. Não morreu. Perdeu tudo — e ficou.

Daniela Pereira de Carvalho, que assina o texto pela Cia. Fotiá, foi buscar em Dante a arquitetura da ruína. Pedro Osório e Augusto Zacchi — 25 anos de parceria, lados diferentes da mesma cena — chegaram juntos até aqui. Na Divina Comédia, Virgílio guia Dante pelo inferno mas nunca alcança o paraíso. Aqui, Virgílio é o condenado. Beatriz — que em Dante representa a salvação — é a mulher que ele perdeu. Quem deveria guiar está perdido. Quem deveria salvar já foi embora.

Aos 27 anos, em um único dia, ele perdeu as duas metades do que tinha. Tudo que veio antes apontava para ali. Um projeto gestado na pandemia, amadurecido por anos de pesquisa, que escolhe o sobrevivente em vez do mártir. Continuar vivo, acumulando luto, carregando uma defesa que ninguém pediu — talvez seja por isso que ele ainda está aqui.

Eu não dei heroína pra minha filha.

Ele acorda. Recomeça.

Ficha técnica

Dramaturgia: Daniela Pereira de Carvalho (Cia. Fotiá) · Com: Augusto Zacchi · Produção: Pedro Osório e Maira Chasseraux

Compartilhar