Daniela Pereira de Carvalho – A pequena prisão
A segunda parte da conversa com Daniela Pereira de Carvalho foi só sobre “A Pequena Prisão”, desde como o convite chegou até ela, passando pelo que foi mais difícil de escrever, até o que a peça ainda carrega da experiência dela própria com 2013.
O convite
O projeto não nasceu da Daniela. Foi Vino Fragoso quem idealizou a montagem junto com Bruce Gomlevsky, parceiro de palco de Daniela, e os dois queriam desenvolver um espetáculo juntos. Bruce aceitou atuar, mas apontou que precisariam de uma dramaturgia forte pra estruturar a cena, e foi ele quem sugeriu o nome dela. Vino já acompanhava a escrita de Daniela havia anos; procurou ela, entregou o livro de memórias de Igor Mendes e perguntou se ela toparia o desafio.
Escrever para um só corpo
Daniela entrou no projeto sabendo que a peça seria um monólogo, com todas aquelas vozes precisando sair do mesmo corpo. Diz que a limitação técnica não travou a escrita. Foi jogando os personagens no papel conforme a história pedia, curiosa para ver que soluções cênicas Vino inventaria depois para diferenciar cada um deles em cena. “Foi um exercício de profunda confiança no trabalho de encenação”, resume.
O carcereiro Jesus

Perguntei se algum personagem foi mais difícil de escrever. Ela diz que não teve bloqueio. Pelo contrário, se viu tão imersa no cotidiano da cadeia que desenvolveu carinho por outros detentos reais que cercavam Igor, como Betão e Marcinho. A dificuldade veio de um carcereiro evangélico apelidado Jesus, que usava o pequeno poder que tinha para humilhar os presos, entrando nas celas de madrugada para perguntar, de forma perversa, se eles queriam “conhecer Jesus”. Segundo Daniela, escrevê-lo foi doloroso justamente por não ser ficção. “Ele é um homem real que praticou aquelas atrocidades”, diz.
As pequenas prisões
A ideia de ampliar o sentido da palavra prisão sempre esteve no horizonte da peça, segundo ela. “Minha geração cresceu convivendo com vigilância, rotulação e limitação de movimentos já naturalizadas”, diz. Pra ela, a experiência literal de Igor na cadeia funciona como amplificador de um aprisionamento mais invisível. Essa sensação muda de forma dependendo de onde cada um está. Da bolha intelectualizada em que ela vive até dentro de uma favela, a sensação de estar contido continua presente, ainda que por motivos diferentes.
Depois do texto pronto
Para Daniela, um texto nunca está de fato pronto. Existe apenas o momento em que os prazos de produção exigem que ela o solte. A partir daí, se policia para não invadir o processo de ensaio, mas não consegue desaparecer de vez. Fica gravitando ao redor dos ensaios, acompanhando a encenação de perto e dando pitacos pontuais quando sente abertura.

2013, de novo
Em 2013, Daniela tinha 36 anos e já não era mais estudante, mas acompanhou o movimento de perto, como cidadã, e viu amigos próximos enfrentarem a repressão. Vino Fragoso, segundo ela, chegou a acampar em frente ao apartamento do então governador Sérgio Cabral, sob risco real de prisão. Foi no mesmo período que ela decidiu reescrever “A Revolução dos Bichos”, de Orwell, transportando a fábula sobre totalitarismo para o presente. Segundo ela, é um texto que ainda pesa sobre como escreve hoje.
Sobre Daniela Pereira de Carvalho
Daniela Pereira de Carvalho é dramaturga, com mais de vinte anos de carreira dedicados ao teatro. Formada em interpretação pela CAL e em Teoria do Teatro pela UniRio, é autora de peças como “Cachorro Enterrado Vivo”, “A Hora do Boi” e “Comportamento”. Em 2026, assina a dramaturgia de “A Pequena Prisão”, adaptação do livro de Igor Mendes em cartaz no Teatro Poeira, no Rio de Janeiro.
Confira a primeira parte desta entrevista, sobre a carreira e a visão de teatro de Daniela.