Cock
Ao que parece, em COCK, a principal transgressão do protagonista não residiria na infidelidade, mas na relutância em adotar um rótulo definitivo. O título evoca as rinhas de galo mexicanas — e o confronto está lá. Mas Baskerville o encena com a sutileza de uma dança em campo minado. Escrita há quase duas décadas, a comédia ácida possivelmente soe hoje como uma farsa sobre a demanda contemporânea por perfis catalogados: fica a impressão de que, caso alguém não consiga se resumir a três palavras-chave e uma bandeira, corre o risco de perder a própria legibilidade no mundo.
No centro desse ringue de 3 x 3 metros, John (Daniel Tavares) procura um prumo que talvez não exista. De um lado, o sarcasmo polido de seu parceiro (Marco Antônio Pâmio); do outro, a perspectiva de um contorno inédito com uma mulher (Bruna Thedy). O humor, que escorre pelas frestas do texto, nasce da hesitação constante do protagonista em fixar residência em um dos lados. Onde o entorno exige um rótulo, e a invisibilidade bissexual costuma ser tratada como defeito de fabricação, ele oferece apenas reticências. Nos deparamos com uma subjetividade que parece desabitada, possivelmente não por falta de inquilino, mas pelo excesso de vozes ditando as regras de ocupação.
A entrada do pai (Hugo Coelho) desloca o que parecia um triângulo amoroso para um tribunal de família com ares de absurdo. Não por acaso, a misoginia não costuma pedir licença para operar; a figura feminina acaba frequentemente encurralada, questionada e minimizada na disputa de vaidades masculina. O que transparece ao final é um desfecho naturalmente caótico. A recusa por uma resolução identitária não desponta como uma falha do protagonista, mas talvez como a reação mais honesta a um convívio que tenta transformar o afeto em uma cartilha. Entre ironias e toques, a encenação nos deixa com uma suspeita: na ânsia de definir cada traço de quem somos, talvez tenhamos esvaziado o próprio desejo.
Ficha técnica
Direção: Nelson Baskerville · Elenco: Daniel Tavares, Marco Antônio Pâmio, Bruna Thedy, Hugo Coelho
Teatro Vivo, São Paulo