Nós, os Justos
O linchamento não precisa mais de praça pública. Um chat corporativo e o silêncio de quem lê bastam para executar uma sentença sem apelação. Na peça Nós, os Justos, de Kiko Rieser, a Companhia Colateral transporta a fúria das telas para a frieza do escritório. O conflito não explode de imediato: acumula-se em silêncio, corroendo certezas. A montagem sustenta a pressão da acusação de forma ininterrupta, recusando ao público o alívio do veredito e instalando no lugar uma inquietação que não se dissipa com o fim da cena.
A dinâmica funciona como uma sindicância em tempo real. Sob uma iluminação que não concede sombra nem descanso, Camila dos Anjos, Luciano Gatti, Marco Antônio Pâmio e Thamiris Mandú sustentam a contradição de figuras que se percebem vítimas enquanto operam o mecanismo da destruição. A permanência constante dos corpos no palco cria uma vigília tensa onde o consenso da fofoca vira lei marcial e o fato empírico cede lugar à mentira mais conveniente.
Essa crueldade validada por protocolos de compliance escancara o cinismo do justiçamento. O coletivo aniquila o divergente para simular uma pureza moral que não existe. Enquanto operam a máquina de moer reputações, os auto proclamados justos ignoram a regra do matadouro corporativo: a instituição não distingue entre o executor e o executado. Ambos serão descartados quando o ciclo seguinte exigir novos culpados. O desfecho não absolve personagens nem espectadores. Resta a constatação de que nesse tribunal a certeza da culpa sempre antecedeu qualquer prova.
Ficha técnica
Texto e direção: Kiko Rieser · Elenco: Camila dos Anjos, Luciano Gatti, Marco Antônio Pâmio e Thamiris Mandú
Companhia Colateral · Teatro Itália, São Paulo