Uma vez por semana, o que eu vi

O que assisti, escrevi e vale a pena conferir — direto na sua caixa de entrada.

Vindos de Longe

Por Marcelo Fava · 19 SET 2026
Capa de Vindos de Longe, elenco completo do musical dentro de cenario de aviao

Eu tinha onze anos em 11 de setembro de 2001. Lembro pouco daquele dia. A imagem que ficou é minha mãe parada entre a vassoura e a louça, olhando para a televisão sem saber o que fazer com as mãos. É curioso como uma lembrança nebulosa ganha contornos precisos de tanto ser contada por muita gente. Parte da minha geração jura ter visto Dragon Ball Z ser interrompido pela notícia. A Globo investigou a história e descobriu que não. Naquele horário, estava no ar Bambuluá, com Angélica.

Vindos de Longe parte de outro acontecimento daquele dia. Com o espaço aéreo canadense aberto para receber aviões desviados dos Estados Unidos, 38 deles pousaram em Gander, cidade de pouco mais de nove mil habitantes. Quase sete mil passageiros ficaram ali por uma semana. Casas, igrejas e ginásios viraram abrigo. Uma cidade pequena teve que se reorganizar para caber uma multidão que chegou sem aviso.

Cena de Vindos de Longe com o elenco reunido no palco em torno de mesas
Vindos de Longe — foto: Divulgação

No palco, essa ideia aparece sem ser explicada. Cerca de 16 atores se revezam entre personagens usando um casaco, um boné, uma jaqueta jogada por cima. Uma cadeira vira poltrona de avião, depois banco de bar. Um banco vira trapiche para um beijo, depois púlpito para uma multidão. Ninguém constrói nada sozinho. O espaço vai mudando conforme o grupo trabalha sobre ele.

A iluminação acompanha esse jogo. Muda a temperatura, recorta o espaço, transforma a mesma área em outro lugar. O RGB pisca e vira luz de patrulha cortando o escuro. Não há uma grande cenografia para dar conta de cada mudança. Há atores, objetos e luz, e a combinação entre eles vai fazendo Gander aparecer. É um trabalho de encenação que parece confiar mais na relação entre as coisas do que na quantidade delas.

A cidade de Gander se ampliou pra receber quem chegou de repente. No palco, dezesseis atores fazem algo parecido. Cada um carrega uma parte, e o conjunto dá conta do que sozinho não conseguiria. É a mesma comunhão de Paulo Freire. Ninguém se transforma sozinho. Até minha lembrança daquele dia parece ter funcionado assim. O que eu não guardei direito, muita gente guardou por mim. E, de tanto dividir, a memória acabou inventando uma cena.

Toda semana, o que assisti e vale a pena conferir — assine a newsletter no site.

Ficha técnica

Versão brasileira de Come From Away (texto e músicas de Irene Sankoff e David Hein)
Direção: Rafael Gomes
Versão brasileira: Mariana Elisabetsky
Direção musical: Gui Leal
Elenco: Andrezza Massei, Bruno Narchi, Thais Piza, Davi Novaes, Neusa Romano, Nábia Villela, Luiza Porto, Andrea Marquee, Isaac Belfort, Rodrigo Miallaret, Eduardo Leão, Enrico Verta, Rupa, Ana Araújo, Bia Castro e Saulo Vasconcelos
Teatro Ruth Escobar (Sala Dina Sfat), São Paulo, temporada até 27 de setembro de 2026

Compartilhar