André Acioli – Curadoria Hoje
Essa é a segunda parte da conversa com André Acioli. Na primeira, ele contou a trajetória, de ator a curador, até assumir o Teatro Eva Herz. Aqui, o que ele pensa sobre curadoria hoje — entre o Teatro Vivo, o Teatro Porto, a MIACENA e a APTI.
O que é curar
Hoje André Acioli cura dois teatros patrocinados por empresas — o Teatro Vivo e o Teatro Porto — e ao mesmo tempo ocupa a presidência da APTI (Associação dos Produtores Teatrais Independentes) e criou, com Dani Angelotti, a MIACENA. Sobre como decide o que entra em cartaz, ele começa negando qualquer método fixo.
“Confesso que não tem uma receita de bolo para essa questão da curadoria, tanto do Porto quanto do Vivo. É muito orgânico, é muito do momento. Oportunidades, possibilidades, negociações, anseios, desejos, o que está acontecendo no planeta, como que a gente pode tratar de determinados assuntos: ‘vamos dar luz para aquilo’. Dou um exemplo: com relação à Vivo, a gente já vem pensando que 2026 vai ser um ano difícil, um ano que vai ter muito feriado prolongado, vai ter Copa, tem eleição, tem muita atividade na cidade de São Paulo. Como que eu vou programar essa curadoria, desenhar esse cronograma de peças, pra gente não ficar numa montanha-russa?”
Mesmo com planejamento, o resultado nunca é garantido.
“O teatro tem essa coisa: é muito efêmero. Se você tem uma greve de trem, o público já não vai. Se você tem um jogo do Brasil importante naquela noite, você já não tem ninguém na rua. E eu não tenho o dia seguinte para poder completar o dobro da plateia que não pôde assistir aquele outro dia. Passou, foi, aconteceu, o serviço perdeu.”

MIACENA
Em 2024, André cria a MIACENA ao lado de Dani Angelotti. A ideia é comumente descrita como uma recusa ao palco italiano — ele discorda dessa leitura.
“Não é que eu tenha recusando as peças pensadas para o palco italiano. Pelo contrário. Acho que todo espetáculo, hoje em dia, já pensa que ele possa ser adaptável. Porque hoje você faz no teatro X, amanhã no teatro Y, depois você viaja. A provocação entra, na verdade, em você passar a olhar não só os palcos convencionais, mas também possa fazer uma adaptação para acontecer especificamente em determinado lugar. Eu quero que aconteça dentro daquele hall, daquele elevador. Quero que aconteça dentro de um banheiro, no estacionamento, na rua, na fachada de um prédio.”

Arte e cidade
A MIACENA ocupa hoje ruas, praças e bares no centro histórico de São Paulo. Perguntado se levar espetáculo pra rua é também uma resposta ao medo da violência na cidade, a resposta dele não cabe num sim ou não.
“Sempre achei que a arte de uma certa maneira ressignifica tudo. A arte é uma cura. Então essa provocação de você colocar um espetáculo na rua não acaba sendo uma resposta ao medo da violência, mas seja uma maneira da gente contribuir para diminuir essa violência, porque onde você leva o pensamento, você traz a coerência das coisas, você traz vida pro lugar.”
Fundo Marlene Colé
Antes da MIACENA, teve a pandemia. André integrava a diretoria da APTI — a presidência era do Gabriel Fontes Paiva, hoje presidente do conselho — quando o setor teve que se mobilizar para socorrer quem ficou sem trabalho. Nasceu daí o Fundo Marlene Colé.
“Cutuquei o Gabriel e cutuquei o Odilon Wagner: ‘e aí, gente, como que a gente faz? Vamos precisar de alguma forma passar o chapéu, porque o setor vai ficar travado, principalmente os bastidores’. O mais difícil foi a gente conseguir se comunicar com a turma. E principalmente as pessoas do circo, que muitas vezes estavam em lugares muito isolados, sem comunicação. A gente mandava às vezes a cesta básica para poder entregar no circo, e o circo já tinha sido expulso daquele terreno.”
Itaú entrou com uma verba, o Fábio Porchat destinou o prêmio que ganhou, o Prêmio Shell também foi pra causa. Mas o que marcou aquele período, pra ele, foi outra coisa.
“Foi um trabalho bem árduo, mas também muito gratificante, no sentido de união mesmo. Foi aí que veio também um dos ingredientes da MIACENA: essa importância de a gente, enquanto setor, estar junto no fazer. Na saúde e na doença, na alegria e na tristeza.”
O infiltrado
André administra dois teatros de patrocinador e ao mesmo tempo representa quem não tem esse patrocínio. Perguntado se isso é contradição, ele ri antes de responder.
“Eu costumo brincar que eu sou um infiltrado nas empresas do setor cultural e um infiltrado no setor cultural das empresas. São anseios e desejos distintos, e para mim isso só me enriquece, porque tenho o olhar concreto das empresas e também a necessidade do setor. Muitas vezes o setor acha que tá entregando aquilo que a empresa quer, e não é. E a empresa acha que aquilo que o setor precisa é determinada coisa, e o setor não consegue fazer aquela entrega. Eu me sinto nesse lugar de elo. Existe da minha parte um lugar de ética: eu não faço parte de projetos que venham a precisar de patrocínio das empresas das quais eu cuido. Não existe a possibilidade de o meu nome estar envolvido em algum projeto que tenha o patrocínio dessas empresas.”
As casinhas
Na última pergunta, sobre o que ninguém nunca perguntou a ele, André não escolhe uma lembrança. Escolhe explicar como o teatro funciona por dentro.
“Há uma consolidação de que tá tudo junto e misturado. E não é. É uma cadeia muito ampla. Entre o ator que faz a peça, o produtor que pensa num projeto e convida as pessoas para fazer, o teatro equipamento que recebe essas produções, o patrocinador que enxerga que aquele artista pode trazer alguma coisa interessante institucionalmente para a marca. São casinhas muito distintas umas das outras. É geração de emprego, é profissionalização, são trabalhos diretos e indiretos, construção de carreiras.”
E fecha assim:
“Não é questão de gostar de cultura. A cultura é a sua vida. É que você não conseguiu enxergar. Mas ela faz parte da sua vida desde o momento que você nasceu, dos hábitos que você tem no dia a dia. Tá impregnado no nosso ser.”
Sobre André Acioli
André Acioli é ator, curador e gestor cultural. Foi curador do Teatro Eva Herz, dentro da Livraria Cultura, entre 2007 e 2023. Hoje cura o Teatro Vivo e o Teatro Porto, preside a APTI (Associação dos Produtores Teatrais Independentes) e criou, ao lado de Dani Angelotti, a MIACENA — Mostra Internacional de Artes Cênicas em Espaços Não Convencionais e Alternativos.
Confira a primeira parte desta entrevista, sobre a trajetória de André, de ator a curador.