Leonardo Netto – O Fascínio pelo Abismo
A conversa com Leonardo Netto fugiu do roteiro original sobre carreira e sobre O Motociclista no Globo da Morte. Perguntei o que ele achava do boom de true crime, dos vídeos de violência real circulando toda hora nas redes. Se isso mudou muito nos últimos anos, ou se sempre foi assim e só ficou mais visível.
“O fascínio pela violência sempre existiu, a diferença é que ele escalou e elitizou de certa forma. Antigamente, a gente via isso naqueles jornais que ‘se espremer, sai sangue’, como o Luta Democrática ou o Notícias Populares em São Paulo, que eram muito direcionados a uma população de mais baixa renda. Hoje, isso virou entretenimento de streaming. Você assina a Netflix e assiste à série do Dahmer, do Ed Gein. O YouTube e o Spotify estão lotados de canais e podcasts de true crime.”
Ele consumiu alguns desses podcasts enquanto escrevia O Motociclista, deliberadamente, pra se alimentar daquela atmosfera, até decidir parar de vez.
“Parei de dar audiência para isso porque percebi que é doentio ficar alimentando essa morbidez. Mas é um impulso inerente ao ser humano. É o mesmo instinto da pessoa que passa de carro por um acidente e estica o pescoço para ver o corpo no asfalto. É o fascínio pelo abismo.”
A observação de Netto não é só impressão pessoal. Pesquisadores levaram décadas tentando nomear exatamente essa mecânica.
A ensaísta Susan Sontag passou anos estudando o efeito das imagens de guerra e tragédia sobre quem olha de fora. Pra ela, “nosso fracasso é de imaginação, de empatia”. A exposição repetida ao sofrimento alheio, sem contexto político, não gera engajamento cívico. Gera anestesia. O horror vira estética de consumo rápido, ainda mais numa era de feed infinito, onde uma cena de violência real aparece espremida entre propaganda e humor, a mesma passagem do jornal popular pro streaming que Netto descreveu.
O filósofo francês Guy Debord chegou a uma conclusão parecida décadas antes das redes sociais existirem. Pra ele, o espetáculo é, em suas palavras, “uma relação social entre pessoas, mediatizada por imagens”, não um amontoado de imagens soltas. Essa relação transforma a vida em mercadoria. Quem filma e compartilha uma tragédia real não está documentando, nessa leitura. Está trabalhando de graça pra alimentar uma máquina que lucra com a atenção alheia.
Nenhum dos dois explica, porém, por que a gente sente vontade de olhar. Foi aí que o cientista comportamental Coltan Scrivner propôs algo diferente. A curiosidade mórbida não é falha de caráter. É herança evolutiva. O mesmo instinto que faz uma gazela espiar um predador de longe, pra entender o limite de perigo sem se expor, é o que nos faz assistir a um vídeo de violência sem participar dele, o mesmo “impulso inerente” que o próprio Netto nomeou sem citar nenhum estudo.
Não existe correlação comprovada entre consumir esse tipo de conteúdo e ter menos empatia. O problema não é o instinto. É o algoritmo que aprendeu a explorá-lo, empurrando conteúdo cada vez mais extremo pra manter os olhos na tela.
No Brasil, esse fascínio já teve desfecho fatal. Em 2014, no Guarujá, uma fake news no Facebook identificou por engano a dona de casa Fabiane Maria de Jesus como uma sequestradora de crianças. Ela tinha transtorno bipolar e voltava da igreja. Foi cercada e espancada até a morte por um grupo de moradores, tudo filmado por celular e redistribuído pelas mesmas redes que espalharam o boato. A câmera, que deveria testemunhar, virou parte do linchamento.
É essa fronteira, entre olhar e participar, que Netto acredita que o teatro consegue segurar, e a tela não.
“O teatro não tem como reproduzir a violência gráfica com a fidelidade da realidade ou do cinema. […] Ele te obriga a usar a abstração, o simbolismo, a poetização para representar a barbárie. E é aí que ele se torna um contraponto: ele tira a violência do lugar do choque gratuito e literal, e a coloca no lugar da reflexão e do símbolo.”
A conversa terminou num lugar que eu não esperava.
“Eu sou um niilista. Sou um pessimista e um descrente total da raça humana e da nossa suposta evolução. Não tomo remédio, não sou deprimido, mas sou profundamente desencantado com a humanidade. E acho que é justamente por enxergar esse nosso lado tão sombrio e violento que eu preciso do teatro para tentar dar algum outro contorno a isso tudo.”
Esta é a terceira e última publicação da série com Leonardo Netto. As duas primeiras, sobre carreira e sobre O Motociclista no Globo da Morte e Pequeno Circo de Mediocridades, estão disponíveis em textos separados.