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Otávio Martins – O Teatro como Futebol

Por Marcelo Fava · 03 SET 2026

Otávio não separa o processo de escrever teatro do de escrever para tela. “Eu nunca começo o meu processo criativo sabendo se o argumento que eu tô desenvolvendo vai ser uma peça de teatro ou vai ser um roteiro.” O ponto de partida são sempre os personagens, não a trama: “Eu acho interessante escrever, mais do que as histórias, é escrever os personagens dessas histórias, porque as histórias, de uma certa forma, elas acabam se espelhando umas nas outras.” Não tem um método fixo além da disciplina: escreve e lê todos os dias, guardando pensamentos soltos num acúmulo que ele mesmo chama de scrapbook.

“De vez em quando eu lembro de alguma coisa, vou lá e resgato.” Quando a história já está clara na cabeça, o processo acelera: “Eu normalmente sou um cara que escreve rápido, porque eu gosto de me livrar daquele universo pra poder entrar em outra coisa.”

A Companhia do Latão, ao lado de Sérgio de Carvalho, deu a Otávio mais do que uma escola de teatro: “Eles me deram uma base filosófica.” Foi Sérgio quem o apresentou a Walter Benjamin, a Gilberto Freyre e, de forma mais estruturada, a Brecht. Do distanciamento brechtiano, Otávio diz carregar até hoje um recurso de alívio cômico, um jeito de abrir uma parte da cena diretamente para a plateia. E guarda uma frase do próprio Sérgio como resumo de um projeto de teatro: “A gente precisava fazer o povo entender o teatro como futebol, porque as pessoas às vezes têm receio do teatro, acham que não vão entender. Só que qualquer pessoa aqui no Brasil sabe o que é futebol.” Daquela fase, ficou também uma definição de ofício: “É um trabalho simples, muito arrojado, muito sofisticado, mas é um trabalho simples. O nosso trabalho é artesanal.”

Companhia do Latão
Companhia do Latão

Otávio e Marcos Damigo se conhecem há quase 40 anos, mas “Entre Irmãos” foi a primeira vez em que Damigo o dirigiu. Antes, Otávio tinha dirigido Damigo em “Caros Ouvintes”, peça em que o amigo também foi assistente de direção. “Eu falei assim: cara, a gente precisa corrigir isso. E foi maravilhoso. O Marcos é aquele diretor que eu acho que qualquer ator gosta de ter, porque ele consegue extrair momentos muito delicados de interpretação da gente.”

Caros Ouvintes
Caros Ouvintes

Não era a primeira vez que alguém dirigia um texto seu. O primeiro foi “Mediano”, monólogo com Marco Antônio Pâmio dirigido por Naum Alves de Souza, que só chamou Otávio para assistir ao ensaio na última semana antes da estreia. Na plateia, Otávio viu uma cena que não lembrava de ter escrito. Perguntado se tinha gostado da “cena da pizza”, respondeu que sim, e só depois percebeu: a cena não existia no seu texto original. Naum tinha escrito a cena incorporando o estilo do próprio Otávio. “Olha que coisa brilhante, e ficou uma cena muito bonita.”

Mediano
Mediano

Hoje, depois de anos concentrado em escrever para os outros, Otávio diz estar redescobrindo o gosto pelo palco como intérprete: “Durante um tempo me encheu um pouco o saco, e agora não. Agora eu estou reapaixonado pelo papel do ator.”

O irmão de Otávio foi a primeira pessoa a ler “Entre Irmãos” inteiro. Afinal, parte dos arquétipos da peça vem da relação entre os dois. “Eu fui o irmão que saiu da terra natal, mudei-me para outra cidade… mas sempre acompanhei, sempre fiquei perto. Todo almoço de domingo era em Campinas, enquanto os meus pais eram vivos.” Coube ao irmão real, o que ficou, lidar com hospital, internação e funeral dos pais. As primeiras impressões que ele deu do texto voltaram para a versão final: “Fui muito em cima daquilo que ele me falou. Meu irmão acabou sendo um grande colaborador da versão final.”

Esta foi a terceira e última parte da conversa com Otávio Martins. Confira a primeira parte, sobre a carreira, e a segunda parte, sobre “Entre Irmãos” e “Asas de Pano”.

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