A Pequena Prisão
Cheguei a São Paulo em 2013, recém-formado, no mesmo ano em que as ruas se encheram por causa de vinte centavos, um estopim que rapidamente se espalhou para outras pautas, da corrupção aos gastos públicos com a Copa do Mundo. Caminhei em algumas daquelas manifestações sem imaginar o tanto que os anos seguintes ainda guardavam. Essa lembrança voltou no escuro da plateia, antes mesmo da primeira cena começar.
A peça adapta o livro homônimo de Igor Mendes e parte de uma história real. Um jovem estudante de geografia foi preso depois das manifestações de 2013, não sob uma ditadura, mas em plena democracia. A certeza de que a democracia havia falhado com ele sustenta toda a dramaturgia.
A partir daí, a prisão deixa de parecer um episódio distante. A plateia é dividida em dois lados enquanto portas de metal atravessam o espaço, reorganizando a cena o tempo inteiro. A sensação é de que o lugar muda sem que a gente saia do mesmo ponto. No centro desse percurso, Vino Fragoso interpreta sozinho mais de trinta personagens. Em poucos segundos, passa de carcereiro a colega de cela, de juiz a mãe, e basta um gesto ou uma mudança na voz para que outra pessoa apareça diante de nós.
Sentado entre grades que se deslocavam durante toda a encenação, percebi como aceitamos com naturalidade espaços delimitados, vigilância constante e pequenas restrições que, aos poucos, passam a fazer parte da paisagem. Ninguém ali estava preso, mas todos seguimos as regras daquele espaço sem hesitar. Quando as luzes acendem, é essa prisão sem grades que continua acompanhando a plateia, mais do que a história contada em cena.
Treze anos separam minha chegada a São Paulo daquela noite na Sala Poeirinha. O mesmo 2013 que despertou uma geração para a política também abriu caminho para disputas que continuam moldando o país. Algumas nasceram do desejo de ampliar a participação democrática; outras fortaleceram um conservadorismo que cresceu lentamente, muito além das manifestações e de qualquer eleição isolada. A Pequena Prisão parte de uma história específica, mas termina fazendo a palavra prisão escapar das celas e aparecer também nos muros, nas grades e nas formas de controle que aprendemos a considerar normais.
Ficha técnica
“A Pequena Prisão” é a primeira adaptação teatral do livro homônimo de Igor Mendes (N-1 Edições, 2017). Direção de Fernando Ceylão, dramaturgia de Daniela Pereira de Carvalho, atuação de Vino Fragoso, que também idealizou o projeto.
Teatro Poeira – Sala Poeirinha, R. São João Batista, 104, Botafogo, Rio de Janeiro
09 de julho a 30 de agosto — Quinta a sábado, 20h | Domingo, 19h
Ingressos: R$ 50 a R$ 100 · Classificação: 18 anos