A Peste
Quando o Dr. Rieux encontra um rato morto, as autoridades minimizam o fato como um incidente passageiro ou, numa linguagem dolorosamente familiar, “apenas uma gripezinha”. A adaptação de A Peste, por Ron Daniels, traça um paralelo brutal entre a ficção de 1947 e a recente gestão sanitária no Brasil. A peça expõe a “miséria moral” que acompanha o vírus, revelando como a política pode ser tão letal quanto a doença quando decide ignorar a pilha de corpos e a realidade dos fatos.
A direção técnica sustenta esse cerco com precisão cirúrgica. O cenário minimalista de Márcio Medina elimina excessos, enquanto a luz de Fábio Retti esculpe a solidão do protagonista em ambientes de tensão sufocante. O contraste cruel está na projeção de uma praia paradisíaca ao fundo, que zomba do confinamento e reforça, com a sonoplastia incisiva de Aline Meyer, a indiferença da natureza diante da dor humana.
No epicentro da encenação, Thiago Lacerda entrega uma performance visceral. Em 80 minutos de monólogo, ele canaliza o texto de Camus, transitando da frieza clínica ao desespero humanista no clímax da morte da criança, um grito ético contra o absurdo. Sua solidão em cena, sem o apoio de outros atores, espelha nosso próprio isolamento, transformando o teatro em um ato de comunhão e resistência.
O aviso final soa profético: o bacilo não morre, apenas dorme. O perigo real é o esquecimento. Em 2020, vivemos a maior pandemia da nossa geração e juramos mudar, mas hoje a memória do isolamento já foi varrida para debaixo do tapete da normalidade. A Peste é um soco no estômago necessário, que nos lembra que, sem a vigilância da memória, estamos condenados a reviver o horror que prometemos jamais repetir.