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Abdias do Nascimento

Por Marcelo Fava · 13 AGO 2026

Não lembro de ter estudado Abdias do Nascimento na escola. O nome aparecia solto, entre datas e nomes maiores, nunca como centro de nada. Só depois descobri que ele próprio havia trabalhado para mudar isso: através do Ipeafro, criou um dos primeiros cursos de formação de professores voltados à história africana e afro-brasileira, antes de existir uma lei que obrigasse esse ensino. Cheguei ao Teatro J. Safra sabendo pouco sobre esse homem. Saí de lá sabendo que essa lacuna não era só minha.

Em 1944, Abdias fundou o Teatro Experimental do Negro para enfrentar uma cena em que homens brancos pintavam o rosto de preto para interpretar personagens negros, prática que decidia, antes de tudo, quem tinha o direito de ocupar aquele lugar no palco. Anos depois, já no exílio nos Estados Unidos, em 1969, Abdias pintou “Liberdade para Huey: Omulu Azul nº 3”, contribuição à campanha pela soltura de Huey Newton.

A peça não apresenta essa trajetória de forma linear. Começa em estado cru: discussão, estudo do corpo, dramaturgia sendo elaborada em tempo real, luz de trabalho ainda acesa. Aos poucos a luz de cena entra, o figurino aparece, a sala deixa de parecer ensaio. A vida de Abdias vai se compondo diante da plateia — infância, vida adulta, o enfrentamento do racismo, o exílio, o encontro com os Panteras Negras. O ator não recebe uma biografia pronta para repetir. Ele se aproxima, camada por camada, de outro corpo e de outra história.

Fanon descreveu a máscara branca que o homem negro veste para ser aceito. No palco, o blackface fazia o caminho inverso: um corpo branco tomava o lugar que pertencia a um corpo negro. Aqui, um ator negro veste o corpo de outro homem negro, reconstrução vivida de dentro da própria experiência negra.

Abdias também propôs e sustentou, por décadas, a criação do Dia Nacional da Consciência Negra, fixado em 20 de novembro, data da morte de Zumbi dos Palmares, em oposição ao 13 de maio. Esse marco no calendário também é obra sua.

O homem que não estava na minha educação formal agora estava ali, montado diante de mim, no corpo de outro. A pele vestida, não escondida.

Ficha técnica

Idealização: Lincoln Oliveira
Texto: Ivan Jaf e Diego Ferreira
Direção: Johayne Hildefonso e Ilea Ferraz
Elenco: Lincoln Oliveira e Fernando Porto

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