Agropeça
O Teatro da Vertigem desmonta a memória infantil ao jogar os personagens de Monteiro Lobato numa arena de terra batida. Sob direção de Antonio Araújo e Eliana Monteiro, com dramaturgia afiada de Marcelino Freire, a peça é um choque sem filtros. A fábula é sequestrada para desmascarar a violência do agronegócio e o conservadorismo cravado no imaginário brasileiro.
O primeiro impacto é geográfico. A encenação se instala no Galpão do MST, no centro de São Paulo. Erguer toneladas de terra para debater o poder pecuarista exatamente no solo histórico do movimento sem-terra cria uma fricção magnética. A geografia vira manifesto.
Na arena, a companhia destrói a farsa do país pop e escancara a máquina do agronejo, que devora a cultura caipira para higienizar a truculência do latifúndio. A conversão fica nítida quando Narizinho abandona a romaria tradicional e assume a estética neopentecostal. A fé vira projeto de dominação.
A gestão dos corpos entra em julgamento logo a seguir. Dona Benta surge dissecada como o pilar da branquitude hegemônica, a figura que camufla a crueldade sob uma máscara de afeto. O contraponto a isso derruba uma velha hipocrisia nacional. Tia Nastácia toma o palco para implodir aquele discurso cínico de que a trabalhadora preta, exausta e subalterna, é “quase alguém da família”. Ela rejeita a servidão disfarçada de carinho.
O rodeio consolida nossos abismos. Pedrinho é a masculinidade normativa, o herdeiro treinado para garantir a posse da terra à bala. Emília encarna a dissidência pura, um corpo travesti atuando como uma fenda ácida, desestabilizando a rigidez conservadora pelo virtuosismo de sua linguagem.
Somos capturados pelo esgotamento sensorial. Durante noventa minutos, o peso daquela terra batida parece grudar no nosso corpo. O elenco leva a fisicalidade ao limite sob a luz de Guilherme Bonfanti e a trilha de Dan Maia, uma máquina de ansiedade hipnótica. É o retrato cru de um Brasil que agoniza diante de seus próprios mitos. Ignorar essa arena é aceitar a exclusão do debate estético mais urgente da cidade.
Ficha técnica
Direção e concepção: Antonio Araújo · Co-direção e cenografia: Eliana Monteiro · Dramaturgia: Marcelino Freire
Iluminação: Guilherme Bonfanti · Trilha original: Dan Maia
Teatro da Vertigem · Galpão do MST, São Paulo