Ao Vivo [dentro da cabeça de alguém]
Em “Ao Vivo”, espetáculo dirigido por Marcio Abreu, Renata Sorrah utiliza seus 50 anos de carreira como força motriz para uma obra política e esteticamente contundente sobre as fraturas institucionais do Brasil. Rompendo com a narrativa dramática tradicional, a peça se constrói como um fluxo de memória onírico dentro da mente da atriz, originado de uma epifania vivida em 1974. Ao desconstruir “A Gaivota”, de Tchekhov, a montagem questiona o fracasso das vanguardas e o esgotamento das convenções burguesas.
A encenação substitui o mero discurso teórico pela urgência dos corpos. Bixarte domina o espaço com uma presença vocal imponente, enquanto Rafael Bacelar usa a performance drag para expor o atrito entre a realidade e a identidade fabricada, quebrando frontalmente a passividade do espectador.
O ponto nevrálgico da dramaturgia é a subversão engenhosa do conceito de “lugar de fala”. Desafiando moralismos superficiais, a direção propõe uma troca de vozes: Sorrah (mulher branca, cisgênero e consagrada) discursa sobre a marginalização trans, enquanto Bixarte denuncia o etarismo e o descarte da mulher madura. Essa inversão obriga o público a confrontar a essência da exclusão de forma universal, independentemente de quem a enuncia.
Por fim, a obra se firma como um ato de resistência contra o conformismo, atestando que o teatro contemporâneo não precisa servir ao entretenimento passivo, mas sim atuar como um documento vivo de quem decide não recuar.
Ficha técnica
Direção: Marcio Abreu · Elenco: Renata Sorrah, Bixarte, Rafael Bacelar
Centro Cultural FIESP, Teatro SESI-SP