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Aqui, Agora Todo Mundo

Por Marcelo Fava · 27 FEV 2026
Aqui, Agora Todo Mundo

A arte às vezes nasce do encontro certo na hora errada. Foi assim com Alexandre Mortagua e Felipe Barros, que se conheceram num curso de cinema sem imaginar o que viria depois. Anos mais tarde, ao assistir Felipe no palco, Alexandre teve um impulso. Entregou a ele seu livro autobiográfico, escrito no limite entre permanecer e desistir. Felipe não leu como quem observa de fora. Reconheceu ali as próprias rachaduras e transformou o material em um solo devastador, vencedor do prêmio de Melhor Espetáculo no Festival Mix Brasil.

Em cena, não há luto silencioso. O que observamos é um corpo em processo de reorganização enquanto desmorona. Um homem gay lidando com seu próprio colapso, anestesiado pela noite, pelas pistas e pelo excesso. A cultura clubber não emerge como uma fuga estética, mas como um mecanismo de sobrevivência. Porém, o passado sempre exige. Por um lado, há o fardo de uma relação marcada pelo fanatismo religioso da mãe. Por outro lado, há o vazio deixado por Márcia, a pessoa que simbolizava cuidado, proteção e pertencimento.

A encenação representa esse estado de exaustão por meio de formas. A cenografia revela a rigidez da cidade, sem ocultar suas imperfeições. A luz delineia o palco e estabelece áreas de isolamento, como se o personagem estivesse confinado em sua própria mente. Essa vertigem é intensificada pelo som. No espetáculo, os nomes das canções de Jaloo são substituídos pelas placas que o público exibe, e as músicas apresentadas refletem precisamente as emoções que o ator precisa transmitir. A DJ Agatha decompõe essas batidas e recria no palco a energia das noites em São Paulo, onde dançar é, em muitos casos, a única forma de seguir respirando.

Nesse jogo cênico, em que o público compartilha a tarefa de manter o personagem de pé a cada placa levantada, a peça expõe o desgaste de viver numa cidade que impõe a normalidade e retribui com solidão. Rejeitando a natureza de um obituário, o espetáculo ergue-se como um manifesto essencial sobre nosso direito à ruptura: pedir ajuda nunca é um fracasso, mas a atitude mais valente de quem opta por seguir vivendo.

Ficha técnica

Teatro Sérgio Cardoso

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