As Amantes de George Washington
O patriarca americano repousa sob a terra. A história ergueu estátuas, escreveu livros, bateu palmas. O texto de Miro Gavran derruba o mito pelo lado de dentro, pelas ruínas que ele deixou no ambiente doméstico.
No palco, duas mulheres habitam um espaço de luto. Carregam o peso de quem foi reduzida ao rodapé da biografia alheia. Martha casou-se com a instituição e assumiu a figura presidencial. Sylvia reteve a sobra íntima, abrigando o homem que a esposa oficial deixou escapar. O humor existe, mas nasce da acidez de quem ainda procura o próprio espaço no mundo.
O que está em jogo não é a infidelidade. É o que as figuras de comando fazem com quem orbita ao seu redor. A rivalidade foi erguida por anos pelo mesmo homem. Elas sustentam essa disputa porque a existência de ambas foi condicionada a gravitar em torno de um mesmo sol negro.
No leito de morte, ele disse um nome. Um só. A crença de que o amor é algo sublime que nunca pode ser corrompido soa como eco irônico quando a cortina ao fundo se abre. A sala escura cede lugar a um jardim, um banco e The One That You Love. A amargura dissolve-se num laço insolúvel, num abraço silencioso onde não existem perdedoras. Restam duas mulheres solitárias na paisagem, percebendo que a inimizade cega era apenas o último decreto do homem que amaram.
Ficha técnica
Texto: Miro Gavran · Elenco: Claudia Ohana e Priscila Fantin
Teatro B. Jaraguá, São Paulo