As Bondosas
Eu adoro um café antes de entrar numa sala de espetáculo. Naquele dia, a moça do café não estava lá. Andei três quadras até encontrar um boteco que resolvesse o problema e, depois, fui para a primeira fileira da arquibancada do Galpão do Folias, onde não há espaço para apoiar os pés. Fiquei com eles balançando. Pronto, já comecei a reclamar.
Gosto de encontrar política nas obras que vejo. Não porque toda peça deva levantar uma bandeira, mas porque o teatro muitas vezes revela os valores, os medos e os controles que organizam uma sociedade. Em As Bondosas, isso aparece nos corpos, mas também naquilo que fazemos para corresponder ao que esperam de nós, principalmente quando sabemos que estamos sendo observados.
Astúcia, Angústia e Prudência, carpideiras contratadas para chorar em velórios, acompanham o enterro da filha mais nova de uma família rica. A gente ri, porque existe humor naquelas três mulheres e na forma como observam, escutam, fofocam e bisbilhotam. Mas o drama vai aparecendo junto, conforme as revelações desmontam a aparência daquela família. As três são interpretadas por homens, decisão de Ueliton Rocon, já presente no texto. E o vestido não é apenas caracterização. Aperta, restringe o passo, muda a postura, limita o gesto. O corpo tem que caber naquela roupa. Os cinco caixotes de madeira, único elemento de cena, fazem o mesmo com o espaço.
A norma não existe apenas porque alguém a impõe. Ela se sustenta porque cada um vigia o outro, julga e ajusta o próprio comportamento ao que se espera dele. As carpideiras fazem parte desse mecanismo enquanto espionam e comentam a vida alheia. O vestido e os caixotes tornam essa contenção visível. Mas, quando a hipocrisia chega ao limite, elas param de representar o papel que lhes foi dado.
No começo, eu estava incomodado porque não tinha onde apoiar os pés. Em cena, três corpos passam boa parte do tempo contidos pela roupa, pelo espaço e pelo papel que aceitaram encenar. Quando decidem não encenar mais, a contenção muda de sentido. Eu estava ali, sentado, rindo, também vigiando, também julgando. No fim, talvez a diferença entre quem olha e quem é olhado seja só de onde cada um está sentado.
Ficha técnica
Texto: Ueliton Rocon – Direção e pesquisa musical: Tom Pires
Elenco: Gerson Lobo, Leandro Mariz e Sidcley Batista