Uma vez por semana, o que eu vi

O que assisti, escrevi e vale a pena conferir — direto na sua caixa de entrada.

Boca Piu

Por Marcelo Fava · 08 OUT 2026
Boca Piu

A convite da Cia Kaçulas, fui ver uma história sobre três ovelhas e saí pensando no nosso tempo. Sei que pode parecer bobagem ler tanto numa fábula. Boca Piu começa depois do fim. Os humanos destruíram o lugar onde viviam e partiram num foguete rumo ao espaço. Não ficaram para reconstruir nem para disputar a permanência. No chão, entre os escombros, sobraram três ovelhas negras dentro de um cercado.

Bruno Latour, em Onde Aterrar?, sustenta que as elites, convencidas de que a Terra não comporta todos, deixaram de fingir um futuro comum. O foguete de Boca Piu põe essa desistência em cena. Só que ele leva as pessoas e deixa as estruturas que tornaram a destruição possível. O cercado continua ali, sem ninguém para explicar por que aquelas ovelhas deveriam permanecer dentro dele. Para mim, é a herança de quem partiu.

Em meio às ruínas, elas encontram um livro sagrado. Nele estão palavras como “mulato” e “cor do pecado”, algumas ditas até hoje como elogio. Vi ali o racismo estrutural, dito em palavras de todo dia. Lélia Gonzalez mostrou, em Racismo e sexismo na cultura brasileira, que a mulata exaltada no carnaval é a mesma mulher tratada como doméstica no resto do ano, e que o nome muda conforme o lugar de onde ela é vista. O livro guarda os nomes que outros deram a quem ficou.

Boca Piu
Boca Piu — foto: Sérgio Fernandes

A Cia Kaçulas conta essa história com palhaçaria preta e música ao vivo. A tradução em Libras fica com abelhinhas, que se movimentam entre as personagens enquanto traduzem. Na leitura do livro, o humor sai de cena. A partir dali, as ovelhas se unem e descobrem que reescrever a história não basta. Para sair, têm de aprender a pular. Gosto dessa imagem porque ninguém volta para abrir o portão.

O foguete levou quem podia partir. No chão, ficaram as estruturas, os escombros e três ovelhas que aprenderam a pular o cercado. E talvez só uma fábula infantil consiga dizer isso assim.

Toda semana, o que assisti e vale a pena conferir — assine a newsletter no site.

Ficha técnica

Texto: Paloma F. Amorim – Direção: Heraldo Firmino
Elenco: Ibu Jean Rocha, Marcela Sabá e Vitor Ugo

Compartilhar