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Chernobyl

Por Marcelo Fava · 13 ABR 2026
Chernobyl

Quando o reator quatro colapsou, em 1986, eu sequer era nascido. Minha relação com o desastre formou-se na escola e pelo eco do Césio-137 em Goiânia, tragédia brasileira que também beira suas quatro décadas. Essas memórias chegam filtradas por datas, números, distância. A peça não as recupera. Chega antes, enquanto ainda doem.

“CHERNOBYL” começa por onde nenhum relatório chega: dentro de uma casa. A narrativa é conduzida por Antonia, a boneca da pequena Hanna. Na evacuação de Pripyat, as crianças puderam levar apenas um brinquedo. Imune à radiação, o objeto atravessa o desastre inteiro como testemunha ontológica da família que se desfaz. Sob a direção de Bruno Perillo, Carolina Haddad, Joana Dória, Manuela Afonso e Nicole Cordery habitam nove identidades com a precisão de quem escuta antes de falar. Elas amarram a escrita de Florence Valéro aos depoimentos colhidos por Svetlana Aleksiévitch, Nobel da Literatura, numa costura em que ficção e testemunho se tornam indistinguíveis.

A cenografia de Chris Aizner não representa Pripyat, evoca sua ausência. A iluminação e o vídeo de Grissel Pinguillem e a trilha de Pedro Semeghini completam esse deslocamento. Há um momento em que o teatro deixa de ser teatro e você se vê dentro, como se partículas suspensas no ar tivessem atravessado a quarta parede junto com as atrizes. O elenco sustenta tudo isso sem deixar ver a costura.

Hanna não sobrevive. A boneca que viu tudo, que não adoeceu, que não esqueceu, é enterrada com ela. O que sobrou da família parte. O medo do Estado atravessa cada depoimento, não como acusação, mas como sombra que ninguém ousa encarar. Não é um medo exclusivo de Pripyat. Valéro nasceu em 1986, o mesmo ano do reator. É poeta antes de ser dramaturga, e foi pela imagem dessa boneca abandonada que chegou até aqui. Saio do teatro sem ter resolvido minha distância do desastre. Mas entendo agora que essa distância não era um obstáculo, era o assunto.

Ficha técnica

Direção: Bruno Perillo · Elenco: Carolina Haddad, Joana Dória, Manuela Afonso, Nicole Cordery
Teatro Estúdio, São Paulo

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