Dois Papas
Que forma tem o silêncio quando ele ocupa o centro do poder? Em Dois Papas, a Capela Sistina surge como uma caixa branca e austera. A sensação é a de atravessar uma sala interditada, um espaço que revela o que a fumaça branca costuma esconder. Ali, o dogma religioso encontra, sem disfarces, a fragilidade humana.
No palco, a respiração dita o ritmo do embate. Zécarlos Machado carrega o peso da teologia em um corpo cansado e ranzinza, buscando refúgio no piano e na solidão para sufocar o eco das fraturas morais da Igreja e o rigor inegociável da tradição. Do lado oposto, Celso Frateschi constrói um Bergoglio inquieto, que chega a assoviar ABBA para espantar uma lembrança dolorosa: os fantasmas de suas próprias escolhas nos anos mais sombrios da ditadura argentina. A química entre os dois sustenta mais de duas horas de tensão sem deixar o olhar escapar.
A atmosfera ganha corpo no jogo de som e luz. A trilha cerca o espectador e transforma o espaço em catedral ou confessionário, conforme a cena pede. Projeções desenham memórias nas paredes brancas, trocando os vitrais coloridos por sombras do passado. É a luz que demarca o território e lembra que aquelas figuras são feitas de dúvidas.
E são as mulheres que ancoram tudo isso na realidade. Eliana Guttman, como Irmã Brigitta, e Carol Godoy, como Irmã Sofia, impedem que a obra vire só um debate de sacristia. Elas trazem ironia, memória política e o peso do mundo lá fora, confrontando a redoma do Vaticano e lembrando que a instituição é feita de pessoas, não de dogmas.
Acompanhar um diálogo assim, em tempos de surdez, soa quase revolucionário. Ver um conservador e um progressista confessando medos e dividindo angústias é uma aula rara. A peça é puro teatro de texto, de ator e de saliva, prova viva de que é possível discordar sem destruir quem está do outro lado.