Entre Irmãos
A encenação não espera o aval do escuro para começar. Enquanto a plateia ainda se acomoda, Otávio Martins já habita o espaço, transitando com a naturalidade de um anfitrião em velório. A falsa sensação de acolhimento é rompida pela simples chegada de Fernando Pavão. É com a entrada do irmão caçula, carregando o peso de 25 anos de ausência, que o público percebe ter chegado a um velório — e que a encenação já estava em curso antes mesmo de sua chegada.
O palco é árido. Não há cenografia que amorteça o confronto. O luto se concentra em duas linhas de luz no chão, um abismo ao redor do qual os irmãos orbitam. A aproximação é ríspida, feita de recuos e esbarrões. O afeto existe, mas está soterrado sob anos de silêncio e atrito. Como as palavras não dão conta da fratura, é o desgaste físico dos atores que traduz a hostilidade e a pressa daquele reencontro.
À medida que a tensão avança, os contornos dessa família ganham nitidez. O irmão que ficou carrega o peso de uma depressão muda, herdada de uma mãe estilhaçada por um sofrimento crônico que culmina em uma morte nebulosa. Mas é o pai, mesmo morto e invisível em cena, quem continua exercendo gravidade sobre os filhos. Sua sombra asfixia porque, naquela casa, a violência e o silêncio nunca foram desvios, mas o próprio ar que se respirava.
O texto não absolve ninguém. O que sobra em cena é o sufoco de dois homens incapazes de nomear a própria dor e que, por isso, só conseguem entregá-la como golpe. Na ausência da fala, o trauma transborda pelo corpo: a exaustão física e a iminência da agressão tornam-se a única linguagem possível entre quem nunca aprendeu outra, até que a armadura cede e o que resta é o abraço.