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Ferida$ Política$

Por Marcelo Fava · 08 JUN 2026
Ferida$ Política$

Em 1996, o Brasil fez algo que nenhum país havia feito. Garantiu por lei que qualquer pessoa com HIV teria acesso gratuito a tratamento. O mundo inteiro olhou. Alguns seguiram. Muitos não. Quase trinta anos depois, o país ainda não fala sobre isso na escola.

Não é esquecimento. É escolha.

O HIV nunca foi exclusividade de uma comunidade. No Brasil, a principal via de transmissão é sexual entre heterossexuais, representando 50,2% de todos os casos desde o início da epidemia. Mais de 173 mil gestantes foram notificadas com o vírus entre 2000 e 2025. Mulheres infectadas, em sua maioria, por parceiros. A epidemia feminiza, periferiza e silencia, continuando a ser tratada como problema de outros.

O SUS distribui 23 medicamentos antirretrovirais, oferece PrEP, autoteste e PEP. Sem essa política, o Brasil teria 18 milhões de infectados, não 860 mil. Temos um dos sistemas mais avançados do mundo. E não ensinamos nas escolas como ele funciona.

Enquanto isso, os Estados Unidos cortaram o financiamento ao PEPFAR, programa que sustentava dois terços do tratamento global. A projeção da UNAIDS aponta 6,6 milhões de novas infecções entre 2025 e 2029. Trezentas mil crianças adicionais mortas pela síndrome. Uma decisão tomada em Washington com consequências em cada cidade onde o acesso à saúde depende de quem está no poder.

Hoje, com acompanhamento médico, quem vive com HIV tem carga viral indetectável. Indetectável significa intransmissível. Você convive com essas pessoas todos os dias e não sabe, porque a ciência avançou e a narrativa ficou parada nos anos 1980.

O Índice de Estigma 2025 mostra que 75,6% das pessoas vivendo com o vírus ocultam sua condição sorológica. Não por vergonha individual. Por projeto coletivo.

Quando o Estado silencia e a escola omite, a cultura entra. É o experimento cênico do Coletivo Contágio que coloca esses corpos no centro do palco. É a roda de conversa aberta ao público, antes e depois da encenação, que faz o que o currículo escolar insiste em ignorar. A arte chegou antes. E por ora, ainda chega sozinha.

Ficha técnica

Realização: Coletivo Contágio

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