Fim de Partida
Numa era de cortes de três segundos e timelines infinitas, sentar noventa minutos assistindo dois homens que não vão a lugar nenhum é, em si, um ato político.
Samuel Beckett não surpreende quem o conhece. Fim de Partida é um clássico — o texto não chega como revelação nem como surpresa. Um homem cego numa cadeira de rodas e seu servo que não consegue ir embora. Uma sala. Um mundo que acabou lá fora. Hamm manda sem ter o que governar. Clov obedece sem saber por quê. O cenário perspectivado aperta conforme avança — você sente o esmagamento antes de qualquer palavra.
Há uma razão suficiente para estar lá. Marco Nanini, 76 anos, carrega esse texto com o próprio corpo. A imobilidade de Hamm não é só dramaturgia — é um homem de verdade nessa idade, nesse palco, escolhendo estar ali. Guilherme Weber se move em torno dele com a precisão geométrica de quem não tem para onde ir. A lentidão da peça acompanha o corpo idoso em cena — e isso sozinho já diz o suficiente.
O Brasil que Rodrigo Portella enxerga em Beckett é o de hierarquias que continuam funcionando por pura inércia, muito depois de perderem qualquer justificativa. Dois lados que se anulam num conflito sem saída. Muita gente na plateia provavelmente não entendeu. E tá tudo bem. Beckett nunca quis ser entendido — quis ser sentido. Numa cidade que dificilmente para, noventa minutos de silêncio já é um começo.
Ficha técnica
Texto: Samuel Beckett · Direção: Rodrigo Portella · Elenco: Marco Nanini, Guilherme Weber